quinta-feira, março 11, 2010

Possessão

Sinto-me cansado

Viver-te de forma intensa certamente me liberta, mas o preço dessa exuberância, aos poucos apropria-se da minha vida, aprisionando-me numa necessidade exacerbada de viver o impossível.

Foste um escape, um novo porto colorido que por um fio me segurava e que através de mim devaneava aos céus suas quimeras.

Eras um poço de vida, e envolvido sob o teu manto de estrelas, bebi de ti até me sentir debaixo de água. Teu córtex era uma lagoa de sonhos bordados pelas mãos de uma sereia, e aos poucos, cedi ao teu sorriso e mergulhei em ti.

Fizeste-me sentir em casa, confortável e seguro. Guardavas-me preocupações como quem guarda um segredo e no silêncio da noite, dançávamos até ao sol espreitar na tua janela.

E assim me fui refugiando em ti e na tua complexa rede de sentidos, que com a gentileza de uma brisa me arrastava para onde desejavas.

Fui-me deixando arrastar por algum tempo e dado a praticidade do amor pouco corresponder à razão, desencadeaste rotinas que exigiam de mim mais que o apetecido.

Assim, acabei por tropeçar em ti e enrolado por entre poeiras e cascalho, aterrei num fosso de obrigações que come aos poucos o que resta da minha vontade de acreditar.

É verdade que me cansas, me róis e me dóis, mas antes cansado com um coração cheio que leve por não ter coração.

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