Caminhava descontraído para mais uma tarde na praia, quando de repente exclamei: - Olha eu ali?!Rapidamente abri e fechei os olhos, esperando apagar da minha vista tão estranha ilusão, mas logo voltei a mim, focando boquiaberto aquela imagem que tanto me confundia.
Lembro-me de pensar: - “Devo estar a sonhar. Isto já passa”, e com isto seguir o meu caminho até às brancas areias que ao sol me esperavam.
Continuei concentrado naquela figura enquanto avançava lentamente, e aos poucos tomei consciência que de um sonho não se tratava, virando então a minha mente para a busca de uma explicação que me pudesse salvar da loucura.
Atentava todos os seus gestos, os seus passos, os sorrisos e olhares, mas à medida que o observava, mais inseguro ficava sobre a lucidez do meu espírito, pois, não fosse já a situação bizarra o suficiente, havia ainda o facto de o meu “clone” vestir exactamente as mesmas roupas que eu trazia vestidas.
Não conseguia desviar o olhar. Estava absolutamente incrédulo, e por detrás dos escuros óculos, os meus olhos assumiam agora que, de alguma forma, aquela pessoa era eu.
Todos os pedaços do seu corpo eram os meus pedaços do corpo, os sorrisos, os olhares. A posse era a mesma e até a maneira como o seu cabelo crescia desproporcional. Começava a ficar assustado, mas ao mesmo tempo, cada vez mais curioso por perceber que se passava.
Observando as suas rotinas, percebia-se que as vidas eram claramente diferentes. O meu “mano” exibia já uma família, e toda a uma aptidão para a felicidade temporária de um matrimónio, que muito longe se encontrava na minha vida. Os amigos eram outros, o ambiente era diferente, mas ainda assim, tudo o que lhe era interno pertencia-me também.
Seria meu irmão gémeo? Seria apenas irmão? Um primo afastado ou uma ilusão da minha mente confusa?... Talvez fosse uma reflexão de um universo paralelo, criado a partir de uma qualquer distorção no espaço-tempo…
Era demasiado para mim.
Desistia aos poucos de encontrar explicações, e absolutamente deliciado, aproveitava cada segundo para me observar, como nunca antes tivera oportunidade.
Comecei então a pensar, que tinha que falar com ele. Seria simplesmente fabuloso saber mais sobre a vida do meu “clone”. Será que tinhamos algo mais em comum? Seríamos intelectualmente semelhantes? Teríamos alguma ligação que desconhecíamos, ou simplesmente éramos fruto de dois acasos?
Todas estas perguntas inundavam a minha mente, enquanto pendia especado há 30 minutos a olhar para o rapaz.
Depois, de um momento para o outro, vi toalhas serem arrumadas, roupas a serem vestidas, e a figura que tanta perplexidade me causara a afastar-se rapidamente daquele reduto de fantasia que por momentos foi criado.
Nunca nos falámos.
Arrepender-me-ei para sempre, de quando me encontrei, nem sequer ter dito “olá!”.