sexta-feira, dezembro 10, 2010

Marcas

Marcaste-me
Ainda sentado, penso no futuro; Um futuro que é agora passado nas ténues águas da monotonia.
Penso em ti como um presente, uma dádiva não gasta, pronta a erguer um destino.
Os galos cantam e a doce escrita volta sussurrando pequenos versos sem voz.
Preparo-me para mais um salto; Um salto adiado, amarrado por cabos de preguiça, por sonos demasiado profundos.
Afogo as ideias, abro as expectativas, preparo o acordar.
Hoje percebi-te

quinta-feira, setembro 30, 2010

Cantos II

As pedras há muito empilhadas em desordenadas paredes vividas, vibravam ao ritmo de modas demasiado batidas por poetas nascidos já gastos.
A saudade era já sentida e a raiva libertava-se, antecedendo uma nostalgia apenas consumada meses mais tarde, na sombra quente de uma lareira de desejos.
Os egos tremiam, mas a necessidade de sensações há muito embutidas apagava qualquer medo de perder, qualquer esperança de falhar ou não ser compreendido por um mundo que desde cedo protegeu demais os seus filhos.
Respirava-se por ali, ainda que nem sempre fosse sentido como se de vida se tratasse. O ar era ingerido e cuspido violentamente, acompanhando a velocidade alucinante a que os copos caíam no chão. A bebida difundia-se por entre os corpos, penetrava os recônditos escondidos da mente humana e arrancava a ferros todo um tipo de confissões obscuras que apenas alimentavam a bebedice.
Brincávamos com troncos em brasa, chutávamos em quem podíamos e com a fúria pouco coerente de quem afogou o sangue em álcool, queríamos sempre mais.
Foi mais uma noite em que esquecemos virtudes e continuámos crianças, correndo sem medos até o sol nascer.
Depois, partimos com os mais velhos, esperando que o novo dia nos trouxesse sensações que só a terra pode transmitir.

terça-feira, setembro 28, 2010

Pêssegos

Tirei férias de mim

Engasguei-me com um doce pedaço de fruta da época e pensei – “Porquê parar?”
A doçura era absolutamente apaixonante e os aromas que se libertavam dos seus sulcos, hipnotizavam-me os sentidos à medida que avançava para o fim da refeição.
“Só mais um pedaço” – pensei engolindo ainda em seco, tentando ultrapassar a intensa sensação de ardor que me arranhava a garganta.

Era ainda cedo, o sol brilhava bem alto e a tarde apresentava-se longa e sem compromissos de maior.
Repousei então tranquilo, enquanto trincava mais um pedaço de tão suave perdição. Inundava-me entre sabores, absorvia vitaminados sucos e perdido entre pensamentos desconexos, preparava-me para continuar.

“Venha mais um!” – Disparei sem pensar.

Não demorou a chegar, ainda mais apetecível que o anterior, e já sem medo ou rodeios, devorei-o sem respirar.
Acabava de comer o mundo, só eu e aquele pedaço de vida que me entregavam inerte, leve de alma e ansioso por se juntar à vontade que me fazia salivar.
Já saciado, a gula furiosa de uma ausência sentida atacava-me agora.
Calmamente, respirei e disse para mim – “Mal não pode fazer…”
Pouco demorou até dizer em tom de brincadeira: - “É mais um para a mesa 5, que a fruta é saudável e não engorda”
Logo voltou, e com ele trouxe não um, nem tão pouco dois, mas sim um pequeno cesto que protegia cuidadosamente quatro pedaços de um pecado que já pouco tinha de original.
Eram igualmente perfeitos, de uma simetria exemplar, de um colorido vermelho fogo e com a penugem de uma recém-nascida ave de rapina. Eram perfeitos.
Atirei-me sem pensar, seguindo o caminho já traçado por um desejo desenhado a régua e esquadro. Devorei-os sem falas, pausas ou sequer um olhar em redor. Esquecia-me de respirar e já sem fôlego, continuava a consumir impulsivamente os frutos do meu desejo.

No fim, já sem prazer, dei por mim a pensar num campo de flores, num caminho feito de pedras, num lago repleto de peixes e numa macieira a ligar a composição.

Tirei férias de ti

domingo, setembro 05, 2010

Cantos I

Tinha frio… Mas ainda assim, os hábitos serviam a vontade de me sentar naquele canto vulgar. As gentes passavam dispersas, vindas de um conjunto de lugares que nas suas mentes se agrupavam num só e as fazia correr por uma última inspiração. As ervas e flores acompanhavam-me discretas, dormindo sob o manto delicado de uma lua cheia, que parecia não parar ao som da distante batida que me enchia os sentidos. Eu, continuava sentado naquele canto vulgar; Apagado, escondido, tentando não causar impressões menos tranquilas a quem ali passava. Eu, esperava; Pensando naquilo que os dias me proporcionavam, naquilo que me dava ao luxo de suportar, e finalmente, relaxava, entregando ao corpo o último prazer do dia, o anestesiar da consciência. O canto continuava vulgar e as pessoas tremiam com o mesmo frio de anteriormente. As festas continuavam com a mesma pulsação, enquanto as ervas e as flores continuavam adormecidas sob o manto de uma lua cheia que dançava agora comigo. Deixei aquele canto vulgar agradecendo-lhe a protecção que me oferecera, e embalando a minha consciência, segui a estrada, farejando a cada passo o rasto de uma festa que já ia longa. Ansiava agora por me juntar a um grupo, que apesar de espalhado por diferentes locais, decidiu inspirar à mesma hora de uma fantasia que não sendo alucinatória, transformava a sua realidade em amontoados de vontades que a todos diziam respeito.

sábado, setembro 04, 2010

Ruas I

Lembrais-me que sou feliz
São apenas dias, sóis que se põe e levantam num movimento tão perpétuo como a nossa existência. São palavras jogadas em copos de vinho, apertos que nos tocam e harmoniosos cantos primitivos que nos resguardam de uma solidão sorrateira.
Jogai-me ao vosso parecer
Foram travessas galgadas, noites sofridas num absoluto cumprimento imbecil. Foram descobertas sem sal, imitações de originalidade que ao me esforçar por entender, apenas me trouxeram a certeza, que livre de pisos se encontra todo aquele que queira ser ele mesmo.
Tratai-me como se vos tratásseis
Joguei o vosso jogo. Lancei os dados viciados por bestas, absorvi o veneno deixado para me usurpar e já à espera que a sorte não me calçasse, cuspi-vos nos olhos o que dele restava em minhas veias.
Libertai-vos de preconceitos e abri-vos a um mundo melhor
Misturei entre mágoas um pouco de todos vós, talhei cada espinho com mãos de artesão, e em botões de rosa transformei algumas das pedras que encontrei no caminho. Converti-me com a transformação, alterei gostos e sorrisos, saboreei luas e costumes, e enquanto esperava por me libertar, ganhei mais uma tentativa.
Lembrais-me que sou feliz

terça-feira, julho 20, 2010

Nós II

As cadeiras pousam inertes olhando para mim. Sinto na sua presença uma aura de harmonia que não consigo recriar. Parece fácil a sua disposição, a sua presença sempre composta. Parece simples tão convicto existir, tão inexistente respirar.
Tento transpor essa calma para a minha realidade, mas consistentemente bato contra uma muralha de amores e vontades, que ao escolherem fazer parte da minha vida, criam a inconsistente harmonia que me rodeia.
Penso, que apenas uma palavra, pode mudar todo o contexto de uma jornada, toda a ambição de uma vida. Uma pausa a menos, um ligeiro zumbido que nos ofusca a audição, basta isto, para tudo mudar.
Talvez tenha sido esse o mal, talvez tudo tenha começado como um fogo de verão. Uma ligeira faísca que disparou na direcção errada, todo um mundo de oportunidades para descriar o destino de um ser.
Mas, seremos assim tanto?
Parece-me cruel desprezar-mos toda a vida que nos rodeia inerte. A harmonia das composições, as deslocações em branco, os uivos difusos de uma noite qualquer.
Não será também passiva de se ouvir, de se crer e respeitar?
A sua beleza supera em pleno tudo aquilo que criámos, todas as descobertas e feitos. Estamos depois. Chegámos depois e sem medos quisemos vence-los, mas a verdade é que já nascemos vencidos.

sexta-feira, julho 16, 2010

Voltas












Só mais uma volta neste carrossel de emoções
Só mais um suspiro enquanto lançamos palavras
Só mais um abraço enquanto apoiamos razões
Só mais um beijo enquanto revemos cruzadas

Só mais um futuro
Só mais um presente

Só mais um…

terça-feira, julho 13, 2010

Envolve-me

Tudo era mágico e sereno

Porquê a necessidade que destrói o instinto?
Porquê esta magoa que viola os direitos?
Porquê humilhar os caminhos passados?

Farto de me procurar, apenas encontro restos de mim, restos de ti, restos de nada. Aos poucos revelam-se maiores que eu, revelam não querer emergir, querem ficar.
As liberdades assumiram posições, as armas estão apontadas e a rendição não é o caminho para a vitória. Bebe mais um copo

Porquê a falta de brio?
Porquê não dar importância?
Porquê a indiferença?

Deixa-me entregar o corpo aos céus, deixa-me voar sem braços atados, deixa-me respirar.
Desatino com tarefas que não existem, com rotinas que já morreram. Desalinho o que nasceu alinhado e tentando forçar a redenção, parto pelo meio o que restava de desejo.
Foge dos pensamentos, corre para longe e envolve-te nas sombras duma luz que aquece. Só mais um cigarro

Porquê o mau estar?
Porquê a ansiedade que busca por ti?
Porquê a vontade do teu respirar?

Não te quero, não te pertenço! Pertenço apenas aos meus caprichos, às minhas glórias, aos meus pecados. Porque tinhas que ser capricho? Não bastou amar? Não bastou a virtude? Desaparece de onde não pertences! Afasta-te dos meus sonhos! Afasta-te de mim!

Tudo era natural

segunda-feira, julho 12, 2010

Nobres

Ao passear outro dia pelo panorama das mentes que me rodeiam, cheguei à conclusão que a maior motivação deste belo povo à beira mar plantado, é a infinita capacidade de sofrer perante as facilidades da vida.

Somos um país de poetas sofredores, simples homens abençoados pela língua de Camões e apunhalados pelo choro da guitarra portuguesa.
Lutamos ferozmente nos momentos espinhosos e sem altivez perecemos facilmente nos braços dos costumes.
Somos gentes bondosas, inteligentes e hospitaleiras. Amamos uma cultura de paixões e prazeres, e empurrados por séculos de triunfosas conquistas, deixamo-nos levar na leve brisa que vem do mar.
Agarramo-nos facilmente à doçura dos hábitos, somos dependentes de sentimentos. Somos indisciplinados navegadores, grandes artistas da alma e brilhantes génios da espontaneidade.
Abolimos a disciplina, abraçamos a sujeição. Temos cultura de vida, corre-nos saudade nas veias.
Temos sede de conquistar liberdades há muito perdidas, mas, quase sempre é abafada pelo sofrimento que usamos para cobrir metáforas de vidas em vão.
Alimentamos uma estabilidade fácil, caseira e cara. Carregamos um coração doce, vadio e brejeiro.

Como escreveu Jorge Dias em tempos: “Para o Português o coração é a medida de todas as coisas.”

sexta-feira, julho 09, 2010

Momentos XVII

Dormito sobre uns ombros que não me pertencem, enquanto me deixo embalar agarrado a responsabilidades

Mantenho clara a visão de um mundo real, ao mesmo tempo que encontro na fantasia uma exibição de consciência que nada posso fazer para mudar.
Retomo liberdades enquanto o calor me encharca, mas adio férteis recompensas com medo de não encontrar o lugar perfeito.
Vivo num débil equilíbrio que preenche os sentidos, ocupando-me cada pedaço numa frenética batalha onde busco direitos poéticos. Acovardo-me com as trocas banais da vida e sem capacidade para me libertar dessa chacina, espero por quem me queira encontrar.
Caminho nas entrelinhas da provação, divulgando regras que descendem de um instinto irracional. Agarro-me a ti, na esperança que a razão não sucumba na mágica casa da agonia.

Acordo sob um tecto que não me pertence, enquanto me deixo embalar agarrado a responsabilidades

segunda-feira, julho 05, 2010

Ocasiões

Era noite de lua cheia

A menina seguia o íngreme carreiro, saltando ágil por entre as rochas carregadas de musgo. Ao longe, vislumbrou tímida um débil vulto parado na bifurcação.
Aproximou-se ligeira, com a pálida serenidade que tão bem caracterizava os seus olhos verde primavera e com um inocente sorriso questionou: - Precisa de ajuda?
O vulto logo atendeu à sua chamada acenando negativamente com a cabeça. A menina esperou.
O vulto seguiu o caminho que a sorte lhe indicou, mas pouco tempo passou até que outra bifurcação lhe dividiu o destino.
A menina chegou pouco depois e com o seu sempre pronto sorriso soltou um singelo: - Precisa de ajuda?
O vulto voltou a atender a menina acenando negativamente com a cabeça. A menina esperou.
O vulto seguiu o caminho que a sorte lhe indicou, mas a noite ia já longa e a cada passo gasto o cansaço chamava-o à razão. Estendeu-se então no chão húmido coberto por velhos trapos e ao preparar-se para sonhar a menina perguntou: - Precisa de ajuda?

Era noite de lua cheia

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Texto escrito para: http://possoapagaraluz.blogspot.com

Semelhantes

Caminhava descontraído para mais uma tarde na praia, quando de repente exclamei: - Olha eu ali?!

Rapidamente abri e fechei os olhos, esperando apagar da minha vista tão estranha ilusão, mas logo voltei a mim, focando boquiaberto aquela imagem que tanto me confundia.
Lembro-me de pensar: - “Devo estar a sonhar. Isto já passa”, e com isto seguir o meu caminho até às brancas areias que ao sol me esperavam.

Continuei concentrado naquela figura enquanto avançava lentamente, e aos poucos tomei consciência que de um sonho não se tratava, virando então a minha mente para a busca de uma explicação que me pudesse salvar da loucura.
Atentava todos os seus gestos, os seus passos, os sorrisos e olhares, mas à medida que o observava, mais inseguro ficava sobre a lucidez do meu espírito, pois, não fosse já a situação bizarra o suficiente, havia ainda o facto de o meu “clone” vestir exactamente as mesmas roupas que eu trazia vestidas.

Não conseguia desviar o olhar. Estava absolutamente incrédulo, e por detrás dos escuros óculos, os meus olhos assumiam agora que, de alguma forma, aquela pessoa era eu.
Todos os pedaços do seu corpo eram os meus pedaços do corpo, os sorrisos, os olhares. A posse era a mesma e até a maneira como o seu cabelo crescia desproporcional. Começava a ficar assustado, mas ao mesmo tempo, cada vez mais curioso por perceber que se passava.
Observando as suas rotinas, percebia-se que as vidas eram claramente diferentes. O meu “mano” exibia já uma família, e toda a uma aptidão para a felicidade temporária de um matrimónio, que muito longe se encontrava na minha vida. Os amigos eram outros, o ambiente era diferente, mas ainda assim, tudo o que lhe era interno pertencia-me também.

Seria meu irmão gémeo? Seria apenas irmão? Um primo afastado ou uma ilusão da minha mente confusa?... Talvez fosse uma reflexão de um universo paralelo, criado a partir de uma qualquer distorção no espaço-tempo…

Era demasiado para mim.

Desistia aos poucos de encontrar explicações, e absolutamente deliciado, aproveitava cada segundo para me observar, como nunca antes tivera oportunidade.
Comecei então a pensar, que tinha que falar com ele. Seria simplesmente fabuloso saber mais sobre a vida do meu “clone”. Será que tinhamos algo mais em comum? Seríamos intelectualmente semelhantes? Teríamos alguma ligação que desconhecíamos, ou simplesmente éramos fruto de dois acasos?
Todas estas perguntas inundavam a minha mente, enquanto pendia especado há 30 minutos a olhar para o rapaz.

Depois, de um momento para o outro, vi toalhas serem arrumadas, roupas a serem vestidas, e a figura que tanta perplexidade me causara a afastar-se rapidamente daquele reduto de fantasia que por momentos foi criado.

Nunca nos falámos.

Arrepender-me-ei para sempre, de quando me encontrei, nem sequer ter dito “olá!”.

segunda-feira, junho 28, 2010

Passeiros III

Olhava para mim com ar desconfiado. Não sei à quanto tempo ali repousava, mas a sua pele escamada reflectia em mim uma estranha sensação de prazer.
Fiquei parado, contemplando sua beleza, imaginando porque teria tão admirável criatura penetrado no meu ninho.
O padrão hipnotizava-me, os brilhantes olhos reluziam e ao som do vento empurrando os tecidos, sentia agora uma forte ligação à sua figura. A sensação tornou-se absoluta. Apaixonei-me imediatamente.
Foi nesta calma colorida que de repente que tudo mudou. A esfinge perfeita moveu-se à velocidade da luz e na minha direcção lançou uma impetuosa investida carregada de rancor.
Reagi por instinto. Mexi rapidamente todas as patas e agarrando a teia mais próxima saltei para me afastar.
Felizmente falhou-me.
Pendia agora num candeeiro, longe do alcance da sua vista. Via a colossal osga, sem qualquer hipótese de me jantar e observava a sua ânsia gulosa, descodificando o seu brilho a cada segundo.
O hipnotismo perdeu efeito, a paixão dissipou-se e deixei-me levar por ociosos pensamentos.
No fim, o poderoso reptil desvaneceu-se na penumbra e apenas restou uma pergunta.

Até quando o brilho de uns olhos nos deve prender a razão?

quarta-feira, junho 23, 2010

Reposições

Entendi tuas angústias

Ainda a noite ia curta e já as mentiras que trocávamos se faziam sentir no terno calor do leito. Apagávamos suspeitas criando rotinas, e com a leve mão da ternura, afagávamos consciências. Éramos apenas nossos, mas a severa sede de posse transformava barreiras em almofadas de penas. Deitávamo-nos confusos, alegávamos falhas genéricas e sem fascínios fazíamos por continuar. Éramos sádicos cruéis. Contaminávamos vontades tentando provar perspicácias e sem fé nas consequências, respirávamos um amor à muito queimado. Ainda assim, respirávamos. A nossa hipnose natural carregava baterias esgotadas e com a força de mil homens, empilhava conflitos para fora de cena. Alimentávamo-nos de nós, sobrevivíamos do fogo. Fomos almas apressadas que viveram cedo demais.

Acertámos na imagem; Errámos no momento

Pedaços III

A procura ilumina. Crer torna possível

Ainda que muito esteja por preencher, as ansiedades adormecidas durante anos não param agora de se libertar de preconceitos, tornando-se aos poucos, muito mais que simples qualidades.
Sinto-me voltar a uma infância esquecida, viajando por entre estrelas à velocidade da luz. Vejo-me e revejo-me por entre caminhos paralelos e tentado absorver todas as soluções, alcanço inesperadas conquistas.
Sorvo galáxias de elementos irrisórios, absorvo pedaços de vida jogados à sorte. Viajo por distintos estados de alma, e acompanhado por latentes incómodos, talho à mão honrados troncos de virtudes.
A existência flui gentilmente, criando fieis ornamentos com que enfeito os meus dias. Testo-me, provo-me, reprovo-me, e aos poucos entendo em mim mais que algum dia ansiei entender.

Um simples acreditar, transformou o aprender

segunda-feira, junho 21, 2010

Momentos XVI

Novas vontades, novos desafios

A preguiça asfixiava-me à medida que os dias passavam. Flutuava numa certeza incerta de não estar a sugerir o caminho correcto; Procurava mudar.

Tentava agarrar um qualquer sinal que provocasse atenção, sem no entanto manchar uma imagem à muito esbatida pelos caprichos da insatisfação.
Sentia-me desiludido, inconformado com hipotéticas premissas, mas ao mesmo tempo, confortável com a triste rotina que vivenciava a cada dia. Parava cada vez mais, respirava cada vez menos.
Abandonei refúgios, lutas, artes e durante aqueles dias, entreguei a consciência a um sono profundo. Tentava travar a indolência que me consumia, mas logo chegava a inércia, cruel e capaz, arrancando à dentada vontades e servindo-a de bandeja a um destino qualquer.
Sentia-me mal por não contrariar. Sentia-me fraco por não saber trancar armários; Sentia-me preso.

Um dia, tudo mudou. O esperado aconteceu, libertando a minha mente de desculpas para fazer o mais correcto; Sem pensar, avancei.

A vida calmou o chamamento. Apenas me coube escolher o destino

quarta-feira, junho 02, 2010

Caminhos

Corro e vejo
Sinto e observo
Vivo e chego


Envolvo-me no teu verde. Absorvo os teus sabores. Respiro a tua intacta brisa e sem contemplações deixo-me embalar.
Tuas cores seduzem-me; Libertam-me da cinzenta carnificina semanal e sem dor retomam-me por completo. Despoluis-me o pensamento e acima de qualquer deus entregas-me a salvação.

Deixo-me parar

Olho em volta preservando na memória raios e sombras de luz que flutuam quietos cobrindo barreiras. Sigo caminho.
Balanço ao som do vento e acompanho a primavera. Os pássaros chamam-me e sem pouso onde sentar sigo o meu destino.
Aninho tranquilo nas estradas; Mexo com a paisagem, anulo ocasiões. Deixo o calor entrar e despido de pensamentos alinho-me com a natureza.

Sigo, paro
Sinto, observo
Descanso, vivo

terça-feira, junho 01, 2010

DIAS 16

Tenho lembranças. Dissipam-se no tempo

O mundo era enorme. Visto dos grandes globos que atentamente seguiam o quotidiano, tudo parecia não ter fim. As correntes de ar arrastavam objectos e sem me aperceber ao que assistia admirava facilmente.
Atentava as flores, os pássaros e as pessoas que passavam. Descobria no mar um infinito desconhecido e sem preguiça ou preconceito deixava-me levar.
Via algo novo a cada dia e com a convicção de presenciar algo memorável, debatia na minha mente conjecturas inconcebíveis. Era feliz a tempo inteiro.
As brincadeiras aniquilavam preocupações, os sorrisos escondiam fantasmas e o amor fazia crescer vidas. Trepava agarrado a figuras utópicas e tentando recriar a sua raça, criava-me lentamente. Era quem era.
Sem esquemas ou raivas escondidas reagia com instinto e sem medo de julgamentos era um livre aprendiz. Temia a pesada mão do desgosto.
Tinha amigos, desfazia amizades. Era verdadeiro, pensava-me fraco. Tentava encontrar-me, ainda que não o soubesse. Era mole.
Carregava um espírito de camaradagem que nada fazia ceder. Levava avante as vontades do grupo e nenhuma moral era demasiado alta para me impedir. Era tão mais forte do que pensava.
Era curioso. Demasiado curioso para saber dizer não. Demasiado espremido num invólucro pequeno, fazia tudo para me soltar. Encontrava-me aos poucos. Desencontrava-me constantemente.
Queria ser grande. A ânsia de querer ser mais que eu era apenas suprimida pelas constantes descargas de adrenalina suada. Tudo podia ser quebrado. Tudo podia ceder. Desafiava as leis da física sem saber com quem tratava e aprendia com mau trato que sua força é demais.
Voava com os pés na terra. Corria até cair no chão, saltava murros impossíveis e ao lado da morte passeava a brincar.
No fim dos dias, caía descalço numa cama aquecida pelos lençóis ajeitados com um beijo e sonhava até acordar.

Guardo tudo, presente no meu ser

segunda-feira, maio 31, 2010

Suspiros

Respirei-te

Senti-te por dentro, soube corar-te. As sombras passavam e nós ficávamos; Quietos, gentis, inocentes. Esperávamos entre embrulhos, mexíamos lábios, sentíamos sons. Absorvíamos essências esperando oportunidades. Víamos por dentro e suspirávamos traições.

Embalei-te suave, soaste lasciva. Perjuraste ternuras ao passo de caprichos; Ganhas-te fulgor, dobras-te gestos. Tremias-me o peito tragando prazer. Afastei bordados ansiando encontrar. Cuidávamos sentidos, entregávamos deleite. Largaste mascaras e despiste costumes. Corrias sem medos entregando poder. Vaidosa sorrias, fingias controlar. Adiaste costumes, quebraste correntes. Deixámo-nos levar.

Navegámos na transitória esfera da criação e com túmidas vontades inflamámos paixões. Libertei-me de mim, cedi ao teu ritmo. O ambiente encolhia, o tempo parava. Elevámos propensões e criámos redutos. Foi imortalidade efémera. Éramos impenetráveis, éramos um só.

Inspiraste-me

quinta-feira, maio 27, 2010

Suposições

Ainda que todos conjecturemos opiniões na busca de uma tomada de consciência, a presunção quando assumida fica mal a qualquer um

Somos na generalidade um povo que perdeu a capacidade de filtrar informação. Ao sermos bombardeados diariamente com todo o tipo de estímulos, e ao nos deixar-mos levar, deixamos ir também a essência de um decidir que tão bem nos caracteriza.
Não bastasse isso, o cada vez maior isolamento da espécie por detrás de panos e telas, de portas e caixas de cimento, leva a nossa perspicácia no que toca a entender os outros para um nível que só na infância fazia sentido.

Guiamo-nos cada vez mais baseados no que vemos viver e cada vez menos naquilo que realmente vivemos

Ainda que o mal faça parte da natureza humana, também o faz a presença no acto. Assumir posições é comum aos seres, cria carácter, ensina a crescer.
Mas, hoje não precisamos disso, somos demasiado ocupados para olhar nos olhos, demasiado ingratos para suportar lealdades.
Não passamos de tímidos preguiçosos que ao ver o seu lugar garantido no céu, deixaram de questionar se não será melhor o inferno.
Somos humanos desumanizados. Somos um produto. Somos menos que nós.

Vivemos num mundo de papel

quarta-feira, maio 26, 2010

Sombras

O carácter impessoal de um comentário, aliado a frases recorrentemente ouvidas durante a minha criação, levaram-me a pensar que a simbiose existente entre mim e quem me alimenta possa não ter sido compreendida da melhor forma.

Senti mais que uma sensação, senti um ataque... Debruçar-me-ei sobre isso mais tarde

segunda-feira, maio 24, 2010

Momentos XXV

Aproxima-se

Iremos fazer promessas, laços serão criados
Irei cantar em deleite e chorar medos malvados
Servirei gritos inglórios mascarados de presentes
Abrirei portas ao mundo sem nada mudar realmente
Guardarei as primaveras, como quem guarda postais
Cumprirei minhas vontades sem nunca pensar nos demais
Deixarei a liberdade que em tempos me enganou
Entregarei amizades que um longo curso criou
Mostrarei quem sou ao mundo levando causas avante
Serei feliz mais um dia ingerindo cada instante

Passou

As alegrias ficaram e pouco pensei no passado
Engoli ares de euforia e larguei fogo ao pecado
Senti na pele as pancadas que os deuses me largaram
Abracei homens distintos celebrando o que alcançaram
Segui caminhos traçados perseguindo o impossível
Trouxe tesouros e cores tornado a paz acessível
Rompi repulsas vividas e voltei a respirar
Corri tentado a sorrir vendo o juízo parar
No final tudo voltou e com janelas abertas
Promessas foram saldadas, foram feitas descobertas

Ficou

quinta-feira, maio 20, 2010

Sabores









Enquanto jogares palavras
_______________.Jogarei fora sentidos
Enquanto despires fachadas
_______________.Mal tratarei prometidos
Enquanto apartares valores
_______________.Fugirei do teu caminho
Enquanto provares falsidades
_______________.Acenarei sem carinho
Enquanto escolheres odiar
_______________.Seguirei outro destino
Quando mostrares lealdade
_______________.Direi: “É mais um café, por favor”

quinta-feira, maio 13, 2010

Pedaços II

Li outro dia algo que me acertou

Procurava à meses por aquelas palavras, mas sem sucesso continuava a tentar descrever numa frase tudo aquilo que havia mudado na minha vida.
A pergunta surgia frequentemente e com a calma pouco coerente que aparentava surgir das minhas expressões, divagava por entre aspectos, nunca conseguindo escolher o balanço correcto entre a descrição e os sentimentos.

Um dia, depois de mais uma manha passada entre notícias e discursos perdidos, dei com elas levitando sobre o fundo azul que se erguia perante mim.
Eram pouco mais de uma dúzia de palavras por entre uma pontuação mínima mas expressiva. O peso estava correctamente distribuído e dava foco a alguns dos meus sons favoritos. Encantou-me de tal forma que a procura terminou.

Tantos textos de famosos escritores e poetas havia lido e nunca de tal modo uma frase tinha descrito tão perfeitamente aquilo que à tanto queria expressar.
Só uma frase, sem floreados nem rodeios. Toda a minha convicção assente firmemente nas palavras certas, afastando qualquer dúvida ao mais céptico dos congéneres.

Senti-me idiota por nunca as ter conseguido juntar assim.
Deliciou-me conseguir naquele momento compreender a beleza e simplicidade da resposta.

“Sonhos loucos?! Ando a fazer deles os meus objectivos desde que descobri que não eram loucura!”

quarta-feira, maio 12, 2010

Introduções

Eu, sou apenas eu. Sou mais um. Sou parte de ti. Sou um Homem.

Encontro-me no dia a dia, por entre as ruas comummente calçadas pela natureza humana. Salto entre abrigos espelhados por fora e dentro formo alianças que sugerem imortalidade. Sigo meu caminho, respiro. Respiro tentando não me afogar. Vivo aqui, ali e também ao teu lado. Moro algures, sem casa. Defendo princípios, meus. Não tenho um lar, mas sim raízes. Guardo momentos, gosto demais. Tenho família, satisfação. Esqueço e acompanho. Encontro-me no dia a dia.

Eu, sou apenas eu. Sou parte de ti. Sou mais um. Sou um Homem.

segunda-feira, maio 10, 2010

Posições

Rasguei meia foto

Estava extremamente magoado com o que comigo fizeras. Meu sangue fervilhava iam já 7 dias e pelo caminhar da situação, o mais provável era começar a consumir-me violentamente para suavizar o desespero.
Não percebia porque tanto me magoavas com a tua ausência, nem o porquê de tamanha falta de apreço, afinal, nunca te tinha pedido mais que os habituais sorrisos.
Confundias-me as semanas, assumindo na perfeição o teu papel de mulher fatal. Brincavas com os meus sustentos, esperando saciar essa sufocante rotina indigesta que a vida te levou a aceitar.
Contudo, o meu íntimo chamava distante por ti, tratava-te como o presente de um passado longínquo e sem falsas expectativas mantinha-te comigo.

Foi assim até aquele dia

Naquela noite atingi o ponto de ruptura e pela primeira vez em tantos anos estava farto das inconveniências da tua atitude, da insensatez do teu carácter e dos teus orgulhosos caprichos.
Admito que continuava a sentir por ti um enorme carinho, mas de alguma forma, pela primeira vez na minha vida vi-te despida de paixão.

Assim, fui somente eu, sem mal nem preconceito, sem pudor ou medo de falhar. Fui sincero contigo, disse-te o que sentia e que à tanto tempo me atormentava os sentidos.
Prontamente soltaste sobre mim uma má sofrida onda de rancor. A tua acidez de espírito apanhou-me desprevenido e com um desiludido suspiro lembrei-me porque razão não conseguíamos durar.
Foi aí que a redoma de vidro onde te guardava tombou e espalhou pela sala toda a fantasia.

Senti-me ridículo

Senti-me ridículo por durante tanto tempo te ter suportado. Senti-me traído por todas as vezes que sem quereres saber te protegi. Senti-me inútil, ao ver aquela que amara ser absolutamente hipnotizada por hipocrisias tantas vezes criticadas.
Depois de tudo o que tinha passado, de ter enganado os sentimentos e de ter engolido orgulhos ao saber-te humilhada, não esperava tamanho despropósito.
O meu interior queimava-me de revolta. Nunca tinha sentido tal desapego pela tua pessoa e a minha inerente frieza tentava escapar ao deparar-se com tão insustentado tormento.

Inconscientemente, tudo se desvaneceu num pensamento.
Apaguei-te da minha vida.
Apaguei memórias, retratos, sons e sentimentos.
Destruí opiniões sustentadas apenas pelo coração e deitei fora os sorrisos que todas a noites me acompanhavam.
Foi poético. O momento da libertação inconsciente de todo um universo de sentimentos que à tanto me impediam de avançar. Foi triste.

Mais não deu

quinta-feira, maio 06, 2010

Encontros

Encontrámo-nos por acaso

Logo me pareceu que de algures te conhecia, mas nada na minha mente fazia referência a quem poderias ser.

Seria possível não te recordar?

Tinhas cara de menina, mas teu olhar transmitia uma sensualidade arrepiante. Teu belo sorriso agarrava-me ao balcão, tua pele libidinosa tocava-me em pensamentos e fascinado com tamanha mistura de sentidos resolvi avançar.
Segui até ti num passo discreto e com a timidez introvertida de quem se sente subjugado soltei um leve: Conhecemo-nos?
Instantaneamente olhaste para mim com teu doce sorriso e respondeste que sim.
Não me senti admirado com a resposta, mas estava agora mais curioso que nunca.

Como podia não ter reparado em ti antes? - pensei.

Contaste-me então a tua historia. Falaste-me do rio e das ruas encobertas, dos estragos e das noites bem bebidas, e rapidamente percebi o que me levou a esquecer-te. Foi só mais uma das minhas falhas no tempo, mais uma das semanas em que vivi debaixo de agua apenas subindo à superfície para respirar.
Agora que penso nisso, talvez a rotura no meu âmago tenha sido maior do que alguma vez imaginei.

Enfim, a vida tem destas coisas, ás vezes precisamos esquecer para mais tarde dar valor ao que podíamos ter ganho

quarta-feira, maio 05, 2010

Reflexões 1.2

Sempre me chamaram de egocêntrico por convictamente afirmar que sou o centro do universo

Não vou negar que alguns dos traços que tão bem me caracterizam não possam ser confundidos com um avantajado amor próprio , mas, olhando bem à minha volta, penso que nunca ultrapassei a barreira do que deve ser considerado um ego saudável.

Talvez estas acusações injuriosas se devam essencialmente à crescente dificuldade que a maioria das pessoas apresenta em gostar de si tal como é, pois nos dias que correm, o amor próprio é aparentemente visto como um privilegio e não como uma característica essencial à felicidade de cada um.

Tornou-se um género de convenção que hoje em dia só pode gostar de si próprio quem preenche uma serie de pré requisitos ditados por indústrias das mais diversas áreas, e que todos os outros (os inadequados) têm que arranjar uma forma de se juntar ao grupo, correndo o risco de serem vistos como pessoas à margem da sociedade.

Todos os tipos de meios de comunicação que nos rodeiam propagam mil e uma regras para definir a beleza, a postura, o que podemos ou não vestir, os tipos de amigos que devemos ter, o que devemos ou não comer e até aquilo que nos deve trazer boa sorte.

Todos temos de ter noção de nós próprios, dos nossos defeitos e virtudes, dos nossos princípios e sonhos. Todos devemos alimentar o nosso ego de uma forma benéfica.
Como diz um dos 250.000 anúncios que passam todos os dias na televisão, “Se eu não gostar de mim, quem gostará?”

Eu vou continuar a proteger com teimosia os meus princípios e vontades (obrigado pai pelos genes da intransigência). Todos nós somos únicos à nossa maneira, portanto parece-me correcto defender os meus genes com unhas e dentes, pois, bem vistas as coisas, é tudo o que posso esperar um dia deixar para a posteridade.

Mas, voltando ao centro do universo, e para aqueles que ainda não estão convencidos, podemos analisar a questão do meu pseudo-egocêntrismo de um ponto de vista mais técnico.

Visto que toda a informação captada pelos nossos sentidos (aquilo a que chamamos de realidade) tem uma velocidade finita, facilmente concluímos que aquilo que conhecemos como presente é na realidade algo que já se passou. Por exemplo, o que vemos a cada momento, não passa de algo que se passou à alguns instantes atrás, pois por muito rápida que a luz seja, ela demorou algum tempo a viajar até aos nossos olhos.
Assim sendo, podemos afirmar que a nossa consciência individual é o "local" mais actual do Universo pois tudo o que observamos faz parte do passado.
Sendo cada um de nós a entidade mais actual do universo, parece-me aceitável e livre de egocentrismos afirmar que sou o centro do universo.

Vistas bem as coisas, cada um de nós é o centro do seu próprio universo

terça-feira, maio 04, 2010

Pedaços I

Esta ânsia por auto-reconhecimento abala-me os dias e ofusca-me as noites. Não sei ao certo qual é a meta, mas sinto claramente algo maior chamar por mim.


Acordo em cada dia sentindo que parei no espaço, mas, olhando para os relógios à minha volta vejo que o tempo passa cada vez mais depressa.

Olho para quem me acompanha e vejo nas suas vidas um reflexo daquilo no qual me vou tornando. Luto por não parar, por recuperar todas as horas perdidas em sonos inférteis. Luto por aprender, requalificar capacidades que esqueci em função duma sociedade que não me conhecia. Luto por afastar os sentimentos que me ligam a este pedaço de terra a qual chamo vida.


Sou mal entendido


Nasci com a estranha capacidade de amar demais, mostrando de menos.

Toda esta frieza pela qual tantas vezes me apontaram o dedo, todo este desgosto por cada dedo apontado... É difícil encontrar quem reconheça o verdadeiro significado da palavra amizade.

Durante muitos anos, a cada novo grupo de pessoas, um novo eu foi criado.

Em cada ambiente tive uma nova imagem, e em cada pessoa uma sensação. Sempre senti dificuldade em mostrar o meu intimo, portanto, sempre me deixei modelar pelos caprichos do grupo, lutando ao mesmo tempo contra a realidade que eu próprio criava.

Foi um paradoxo interessante, este que me guiou durante tanto tempo.

Agora, olho para trás e vejo que simplesmente nunca tive a coragem de assumir realmente aquilo que tanto queria mostrar.

Hoje tento resolver essa equação. De uma vez por todas por os pontos nos i´s e aos poucos mostrar ao mundo que aquilo que conheceu não passava de uma imagem das suas mentes projectada numa tela desfocada.


Hoje marco posição


A vida é demasiado minha para não a viver ao passo das minhas vontades. É demasiado curta para atender a caprichos de falsos amigos e patrões, de impotências alheias e de regras duma sociedade regida apenas por interesses económicos.

Hoje vivo só para mim, para os meus amores, as minhas ânsias, os meus desgostos e felicidades.

É óbvio que com tanto eu, nem sempre é fácil explicar a quem me ama, que o meu amor não é menos verdadeiro, nem tão pouco mais coerente, mas que simplesmente a minha vida existe a uma velocidade diferente.

É nestas alturas, que por muito que o cérebro diga para avançar, o corpo tem que descansar.

Rodeio-me então daqueles que a dignidade foi deixando, e durante breves instantes, o meu mundo volta a ser aquele cantinho, o eterno berço de criança, deixando espaço aberto para a minha mente repousar.


A cada metro que limito o meu espaço, o meu tempo acelera a uma velocidade incongruente

segunda-feira, maio 03, 2010

Pretextos

Disseram-me outro dia que as desculpas não se pedem, evitam-se.


Sinceramente, nunca tinha realmente pensado sobre o assunto e humildemente aceitei a convicção.
Durante algum tempo achei que assim deveria ser e quem sabe, pois a memória já me atraiçoa, cheguei até a empregar a expressão num tom apreciável como quem finge recusar um perdão.
De qualquer forma, ainda que tenha por vezes tentado, nunca o consegui recusar.

Hoje, olho à minha volta e vejo que em todo o lado a desculpa foi banalizada, caindo em uso ordinário. Vivemos numa sociedade sem honra e servimo-nos cada vez mais do encanto dos sentimentos para tirar proveito da humanidade dos outros.
Uma desculpa sentida é um dos actos mais nobres dos géneros, é o reconhecimento do que somos perante o mundo, é o abrir dos portões da alma ficando suspensos perante a vontade de outros.

É poético pensar que o mundo poderia ser assim, sem desculpas, sem erros, sem mágoas ou orgulhos feridos. É agradável sonhar com tão serena fantasia...
Mas, se assim fosse como nos daríamos nós a conhecer? Como saberíamos então com quem poderíamos ou não contar?


Errar é humano


As desculpas são parte de nós, são os pequenos demónios que carregamos aos ombros e que por vezes não temos ousadia para expulsar. São os sentimentos de culpa que nos arrastam por caminhos lamacentos e que sem gritos de glória nos afastam dos corações alheios.
A desculpa é o sentir na voz de outros que a nossa vida faz sentido.


A cada desculpa que peço revelo-me, e aos poucos construo-me aceitando aquilo que sou.

Para quê esconder o que somos quando isso é tudo o que temos?

sexta-feira, abril 30, 2010

Lições










Existem momentos que só a morte pode apagar. Essa é a verdadeira realização pessoal

quarta-feira, abril 21, 2010

Vidas

Morremos

A cada palavra não dita, a cada sorriso escondido, a cada olhar desviado;
A cada sonho perdido, a cada amor não ouvido, a cada instinto apagado;
A cada amizade esquecida, a cada risada engolida, a cada minuto passado;
A cada tela perdida, a cada marca escolhida, a cada livro fechado;

Morremos

A cada memória torcida, a cada gesto previsto, a cada remorso guardado;
A cada voo reprimido, a cada caminho abatido, a cada filho negado;
A cada virtude temida, a cada orgulho sofrido, a cada desejo trancado;
A cada história vestida, a cada angústia tremida, a cada defeito privado

Morremos

Morremos por não dormir, por discutir e fumar;
Morremos por insistir no vício de trabalhar.

Morremos não nos ouvindo e seguindo o que é correcto;
Morremos a cada instante vivendo a rotina de perto.

Morremos quando negamos a vontade de aprender;
Morremos vivendo destinos que não adornam o ser.

Resta-nos assim ser felizes nunca esquecendo a verdade:
Cada vontade é um dia; Cada dia é uma vontade.

terça-feira, abril 20, 2010

Imunidades









Vestidos beijados em pranto
Vislumbre de um véu indeciso
Cantos outrora queixados
Jogados à rua num riso

Vísceras mal amanhadas
Olhares forjados por bestas
Marias dementes gritavam
A vida abrume os poetas

Recusei tua indecência
Desprezei teu mal cultivo
Sorri de lágrima ao peito
Ao ver tão falso feitiço

Doce e fiel alegria
Certo és por estares presente
Salvaste-me a dignidade
Dos caldos daquela gente

Por mim a noite chamava
Deitei-me nela despido
Como os anos me ensinaram
Rasguei asas ao cupido

Ambrósia falava por mim
Deixei-me levar baixinho
Dancei uma valsa redonda
Com duas gémeas de vinho

Sentei-me então na penumbra
Rodei-me de profetas
Recordei suas heranças
Ansiei por descobertas

Pouco tardou a chegar
O sinal que precavia
Rápido fui a largar
Aquilo que me trazia

Desculpas diriam os burros
Todo o mal jazesse aqui
Usa-te desta tourada
Que a escola vai ter um fim

Somos todos animais
Adoramos o que é quente
Verdes fui mantendo os anos
Na reserva de um presente

Tanta luz por mim trocada
Acordou uma certeza
No meio de tanta estocada
Nada resta de beleza

Assim parecem findar
Os amores que me guiaram
Longes ficam em branco
As horas que vos guardaram

Dancem, durmam ou morram
Comam, matem ou mamem
A vida é de quem a corre
Quem fica p’ra trás não ganha

domingo, abril 04, 2010

Momentos VI

A aparente incompatibilidade das duas vidas, parece não fazer sentido quando separadas.
O tempo cura, mas mais cedo ou mais tarde volta a trair ideias e sentimentos trazendo de volta a estranha sensação de um espaço por preencher.

terça-feira, março 30, 2010

Passeios II

Como em qualquer outro dia, arrastei-me perdido na cama tentando contrariar as marcas da noite anterior. Cansado desisti...

Saltei repentinamente com a súbita imagem de um qualquer dever por cumprir e rapidamente acordei da embriaguez que profundamente me embalava.
Numa súbita onda de lucidez fiz a mala que jazia despida no chão, passei pelo pálido espelho da entrada e enquanto trincava uma maça sem sabor encontrava-me já a caminho.
Conduzi os habituais sessenta minutos por entre asfaltos de gente sisuda e sem realmente o desejar dei por fim com aquele horrível edifício que sustentava a minha vida.

Mergulhei na monotonia do costume...

Sem que desse conta do tempo, tinha chegado a hora de abandonar o barco.
Sai sem pensar, e respirando o ar fresco da noite como se do último dia se tratasse, segui o meu caminho por entre os velhos moinhos, prometendo a mim mesmo finalmente descansar.
Ao pousar a mão no bolso do longo casaco preto, senti um fraco vibrar. Procurei exaustivamente, mas tudo o que encontrei foram cartões e papeis, rebuçados e algumas moedas.
Deixei de sentir o pulsar; A chamada perdeu-se.
Calmamente procurei nos restantes bolsos, pensando eventualmente tratar-se de mais um café de ultima hora numa qualquer maquina ali perto.

Foi com um breve olhar que o meu corpo parou.
Imóvel, perdi-me em pensamentos ao ver aquele nome no castigado ecrã.
Parei para respirar...

Depois, preparei as palavras, inspirei intimamente uma última vez e devolvi a chamada.
Do outro lado surgiu tímida a voz mais doce da qual tenho memória. Seus lábios cantaram um simples “Olá” e o meu dia acendeu.

Guardarei por anos aquele dia; Lembrarei para sempre aquela chamada;
São assim os dias felizes, inesperadamente únicos.

domingo, março 28, 2010

Estima

Sempre alimentámos um pequeno ódio de estimação.

Nem sempre foi visível nem sentido pelo mundo à nossa volta, mas no nosso íntimo algo evocava o que de mais animal havia em nós.

Não sei como começou, e durante muito tempo pensei que tivessem apenas sido as circunstâncias da vida a criar-nos. Hoje, vários anos volvidos, olho para o passado e tenho plena consciência que fomos nós a criar as circunstâncias.

Assim como quem nasce destinado a amar-se, nós nascemos para nos confrontar. Fossem pequenas trocas de olhares ou breves trocas de palavras, a ligação que entre nós havia sempre superou qualquer divergência que nos rodeasse.

Vivemos perto, rodeados por muralhas de corpos que usámos para nos alimentar. Com pequenas incisões cortámos aquilo que nos ligava à terra e sem darmos conta, nas grandes bifurcações da vida acabámos por nos dirigir.

Atacámos sempre que pudemos sem nunca sujar as mãos, e com o respeito e interesse de dois senhores da guerra, utilizámos como peões o mundo que nos rodeava.

A vida afastou-nos, o ódio manteve-se, sempre na esperança que um dia mais tarde a vida nos entregasse de bandeja forma de ao outro infligir uma sentença.

Parece que a hora chegou

quarta-feira, março 24, 2010

Para ti

Não podendo ser teu braço, espero ao menos ser um cantinho no fundo do peito.

Não podendo ser teu porto, espero ao menos que a lembrança te conforte.

Não podendo ser teu rumo, espero ao menos que encontres o caminho que te faz feliz.

Não podendo ser teu amigo, espero que vás e nunca voltes.

Espero que a vida te vá bem.


De quem um dia se rendeu

segunda-feira, março 22, 2010

Momentos XIII

Chega de divagar no ontem e amanha. Chegou o momento de asseverar o presente e sem vagarosas preguiças gritar ao mundo tudo aquilo que somos.

Abandonemos as corridas sem rumo e sem medos nem mágoas partamos à conquista do reconhecimento eterno.
Desbravemos florestas de intrigas e necessidades vãs, soltemos as velas da liberdade e rumo a uma felicidade só nossa partamos erguidos.
Cantemos juntos à tua estrada e de sorrisos abertos pintemos o mundo numa só tela.
Partilhemos sonhos e vontades e como se fossemos um só, respiremos em uníssono.

Pronunciemos palavras de conforto, reneguemos aos insultos e a insinuações proveitosas.
Sejamos somente nós, e sem cargos nem culpas deixemos de imputar géneros e persigamos os nossos sonhos.
Sejamos quem queremos, façamos o que nos incita, amemos quem nos quer bem e esqueçamos quem um dia nos quis.

sexta-feira, março 19, 2010

Nós

Não fosse este fluxo de luz que percorre zangado o labirinto da alma e tudo seria diferente.

Viver na escuridão pode à primeira vista assemelhar-se a castigo, como se nos prendessem inertes, longe dos sentidos e do mundo que nos quiseram ensinar.
Lutámos impetuosamente contra tal negrume e num brilhante passo de magia demos asas à imaginação e acendemos os archotes do universo.
Prendemos pensadores e mentes difusas, e ao abrigo do fogo trancámos a disposição da mente num complexo labirinto de tecidos.
Sempre a luz...

Porem, ao focarmos para além do horizonte, podemos sentir que sempre existimos na escuridão. As inquietudes de um acaso por revelar pairam sobre os nossos corpos, mas só em pequenos momentos de fluidez as conseguimos encontrar.
Fomos assim formatados, seres criados de ilusões de grandeza, desfocados da realidade e apenas dotados daquilo que nos alimenta a aceitação.

Aglomerado de ideias idiota. Nasceste já demasiado cheio de luzes para conseguir ver o vazio. Auto destróis-te num vórtice de sensações para as quais não te queres abrir. Renegas-te perante os outros à primeira miragem e sem o mínimo de orgulho deixas-te levar. Máquina estúpida, sem competência para superar a criação, ausente de meios capazes de nos salvar de nós próprios.

Não se iludam com jorros de luz; Viver na escuridão é nosso. Somos os das cavernas e apenas isso para sempre seremos.

quinta-feira, março 11, 2010

Possessão

Sinto-me cansado

Viver-te de forma intensa certamente me liberta, mas o preço dessa exuberância, aos poucos apropria-se da minha vida, aprisionando-me numa necessidade exacerbada de viver o impossível.

Foste um escape, um novo porto colorido que por um fio me segurava e que através de mim devaneava aos céus suas quimeras.

Eras um poço de vida, e envolvido sob o teu manto de estrelas, bebi de ti até me sentir debaixo de água. Teu córtex era uma lagoa de sonhos bordados pelas mãos de uma sereia, e aos poucos, cedi ao teu sorriso e mergulhei em ti.

Fizeste-me sentir em casa, confortável e seguro. Guardavas-me preocupações como quem guarda um segredo e no silêncio da noite, dançávamos até ao sol espreitar na tua janela.

E assim me fui refugiando em ti e na tua complexa rede de sentidos, que com a gentileza de uma brisa me arrastava para onde desejavas.

Fui-me deixando arrastar por algum tempo e dado a praticidade do amor pouco corresponder à razão, desencadeaste rotinas que exigiam de mim mais que o apetecido.

Assim, acabei por tropeçar em ti e enrolado por entre poeiras e cascalho, aterrei num fosso de obrigações que come aos poucos o que resta da minha vontade de acreditar.

É verdade que me cansas, me róis e me dóis, mas antes cansado com um coração cheio que leve por não ter coração.

segunda-feira, março 08, 2010

Passeios I

Era uma vez uma noite como tantas outras. O Inverno insistia em mostrar as suas virtudes, e no calor de uma chama suspensa, um gato pensava adormecido.

Seus olhos entreabertos, expandiam-se em horizontes de felicidade e sem o peso da realidade, viajava por prados cobertos de sol e arco-íris sorridentes.

Era certamente um daqueles lugares mágicos onde qualquer gato poderia ser feliz. A comida abundava e os perigos desvaneciam-se em novelos de lã. Amigos e brincadeiras não faltavam e não querendo estragar a perfeição, a gatinha dos seus olhos pousava mesmo à sua frente.

Viveu momentos de descoberta, e muitos anos se passaram naquela intensa e brilhante história de amor.

Acabaram por se mudar para um abrigo de luxo, onde aconchegados e quentes, trouxeram ao mundo a sua primeira ninhada de gatinhos. Foi um momento mágico, e a felicidade sentida, era apenas superada pela inútil necessidade de os proteger naquele mundo perfeito.

Rapidamente, viajou no tempo e num piscar de olhos todas as criam estavam criadas. Eram agora jovens adultos e todos se tinham tornado em lindos gatos com o pelo sedoso do pai e os olhos profundos da mãe.

O orgulho enchia-lhe o coração, e com a sua gatinha a seu lado, toda a vida fazia sentido.
Foi então que a chama adormeceu...

Aos poucos, o frio do Inverno voltou e em batidas irregulares, o seu paraíso deu lugar à velha lareira que repousava a seu lado.

Círculos

Adoro o teu poder de me iludir enquanto te enganas.

Deliro com cada vontade que mostras na esperança de me fazer esquecer.

Amo cada dia passado nas mentiras de um futuro desprezado.

Respiro cada sopro de vida que me atiras em vão.

Sufoco-me em luxos que apenas servem os caprichos do coração.

Desfaço-me nas noites inquietas em que a sina parece perdida.

Renasço a cada sinal da minha vontade divina.

Adoro o teu poder de me iludir enquanto te enganas.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Momentos XII

Dissipo-me mais um pouco a cada dia passado na sombra de mim.

Vou avançando nesta rotina permissiva de ilusões e roubos de identidade, e sem querer saber, sei que dificilmente me conseguirei afastar.
Faltam-me rotinas saudáveis, processos claros e sem enredos. Falta-me ser justo e aceitar que mais cedo ou mais tarde algo terá que ser feito.

Feitio torto, sempre a esticar cordas para ver até onde aguentam.
Mente perversa, tentado provar que as regras existem para ser quebradas e que só as convicções são absolutas.
Objectivos difusos, arrastando ideias de canto em canto na esperança que algum tipo de alumiação divina se dobre perante mim, entregando-me de bandeja o destino.

A inquietude de espírito eleva-me, mas como todas as contradições na vida, prende-me também ao chão com correntes invisíveis, partindo em dois aquilo que me faz sentir livre.

Em suma, ao perseverantemente tentar viver a vida de todos vou deixando para trás aquilo que só a mim me compete viver.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Apenas

Tão perto, tão certo
O fluxo que vive e arrasta o tempo, pára perante o apenas...

Apenas tu

sábado, fevereiro 20, 2010

Carnaval

As águas rolaram, a garrafa acabou vazia

A toa da vida teve o seu auge e sem preconceitos brindámos à existência, ao livre arbítrio e à vontade de continuar.

Foram dias, noites, horas, minutos, segundos... Tempo criado com o simples propósito de nos suportar a essência.

Ao primeiro contacto, soubemos imediatamente no nosso íntimo que fomos feitos um para o outro. A tua força moldou-me, embalou-me, e contigo no meu ser cresci assim.

Nada me lembro, mas tenho presente no peito a nossa primeira exposição. Cada batida estremecia os muros que me sustentavam, a cada passo milhares avançavam no giro, a cada suspiro um copo caia vazio. Foi assim que me mostras-te quem eras, e eu escolhi.

Num só dia me moldaste, mas todos os anos me seguras. Fazes-me amar como nunca amei, aconchegas-me como nenhum harém me poderia aconchegar, és parte de mim e qual momento da criação, quando existimos somos um só.

Hei-de sempre atender às tuas chamadas, hei-de sempre cantar-te e carregar-te aos ombros, hei-de sempre sentir-te.

Venham mais mil

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Voos

Depois do auge, vem a tormenta

Falta-me aquele reduto de tranquilidade que tão bem representavas.
Sinto-me só

O corpo extingue-se e sem mão que o segure tudo parece não passar.
Sinto-me desamado

A fragilidade do espírito face ás repentinas mudanças de cenário abriu espaço para o vazio.
Sinto-me sem rumo

Enganas-me em sonhos e sem luto ou piedade fazes-me acordar.
Sinto-me logrado

Não sei mais quem és e a incerteza das situações despromove a confiança.
Sinto-me mal

Envenenaste-me o sangue e com tenazes em chama abriste o meu coração.
Sinto-me pouco

Contudo, o que me fazes sentir, seja ou não verdadeiro, assalta-me sem aviso para me relembrar que basta viver para amar.

Depois do auge, vem a tormenta

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Ilusões

Inundo-me no teu fumo e com batidas profundas embalas-me ao ritmo de um tempo só teu.

Levas-me até ao fundo de um poço de vidas passadas e sítios dispersos, de pólen das flores e arco íris infinitos. Deixas-me entrar em ti e navegar, descobrir mais, libertar-me de vícios e sonhos e qual novo rico num mundo de trocos fazes-me viver.

Vou avançando em ti, voando ligeiro, libertando-me da luz e vivendo na tua cor. Dessaturas o negro e das cores fazes um mar de fantasia inalcansável. Viajas comigo à velocidade da luz por espaços remotos de tempos distantes que gentes vividas alcançaram num passado de horizontes incertos. Levas-me à concepção da beleza dos seres que a deusa do amor lançou com um charme que mata os sentimentos mentidos. És um horizonte de infinitos.

És o azul do universo.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Reflexões 1.1

Os valores que se levantam perante os grandes desafios da vida, tornam visível o verdadeiro sentido de carácter.
A naturalidade com que estes desafios se transformam em puro entusiasmo, demonstra a enorme capacidade humana de adaptação.

Cada um de nós é na realidade o seu maior inimigo. Ao esquecer-mos os hábitos e preconceitos adquiridos ao longo do tempo, apercebemo-nos que o mundo foi feito de nós para nós.
Assim, os dilemas eternos perante as grandes bifurcações da vida não passam de um mero esquecer do nosso berço.

O caminho não depende de nós, mas só a nós cabe a tarefa de o levar até ao fim.

No final das contas, basta abrir os braços e deixarmo-nos levar para rapidamente recuperar-mos a consciência de que cada homem nasce com um propósito.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Momentos VIII

O mundo desabou, mas cedo se ergueu num esplendor de sonhos suportado apenas por ténues fios de esperança e vaidade.
Foram tempos fáceis, em que o passar das luas se contava através das terras calcadas, das noites bebidas e das histórias por contar. Foi o abrir de um baú de experiência, de querer e poder, era o tudo e o nada.

Contudo, com o passar dos anos a vida dos sonhos voltou a ser apenas o mundo destruído que à muito havia deixado para trás.

Desolado, contemplou o que restava à sua volta.
Via-se agora rodeado de despojos duma guerra à qual virou as costas, e que sem ele crescera até aos limites do seu ser. Assim, a cada passo dado, a cada esquina dobrada, a pouco e pouco o medo alcançou-o.

Continuou perdido, vagando assustado com pensamentos de ausência e pecado. Viajou sozinho, acompanhado, por vezes até com um amigo a seu lado, mas no seu íntimo não importava, pois nada mais fazia sentido.
As fachadas das casas caídas já não brilhavam como antes, o ladrar brincalhão do cão da vizinha deu lugar ao uivar de lobos famintos, os canteiros de flores pareciam agora pequenas valas comuns dada a quantidade de corpos ali prostrados.

O medo foi ficando, mas a vida continuou sem lhe dar descanso.

Assim, começou aos poucos a reconstruir o que perdera.
A cada novo passo descobria um mundo de oportunidades, e a cada olhar um mar de apoio e razão. Com pequenos gestos mudou aquilo que via e no seu íntimo aprendeu a aceitar a nova casa.

No entanto, a razão abandonava-o por instantes, deixando-o entregue aos desejos do coração.
Era nesses momentos que o passado voltava e o impedia de ser feliz.