segunda-feira, junho 28, 2010

Passeiros III

Olhava para mim com ar desconfiado. Não sei à quanto tempo ali repousava, mas a sua pele escamada reflectia em mim uma estranha sensação de prazer.
Fiquei parado, contemplando sua beleza, imaginando porque teria tão admirável criatura penetrado no meu ninho.
O padrão hipnotizava-me, os brilhantes olhos reluziam e ao som do vento empurrando os tecidos, sentia agora uma forte ligação à sua figura. A sensação tornou-se absoluta. Apaixonei-me imediatamente.
Foi nesta calma colorida que de repente que tudo mudou. A esfinge perfeita moveu-se à velocidade da luz e na minha direcção lançou uma impetuosa investida carregada de rancor.
Reagi por instinto. Mexi rapidamente todas as patas e agarrando a teia mais próxima saltei para me afastar.
Felizmente falhou-me.
Pendia agora num candeeiro, longe do alcance da sua vista. Via a colossal osga, sem qualquer hipótese de me jantar e observava a sua ânsia gulosa, descodificando o seu brilho a cada segundo.
O hipnotismo perdeu efeito, a paixão dissipou-se e deixei-me levar por ociosos pensamentos.
No fim, o poderoso reptil desvaneceu-se na penumbra e apenas restou uma pergunta.

Até quando o brilho de uns olhos nos deve prender a razão?

1 comentário:

  1. gostei muito do texto !

    e é na calma colorida que as coisas costumam mudar...

    cheio de sentidos , gostei disso!

    Beijos :*

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