terça-feira, setembro 28, 2010

Pêssegos

Tirei férias de mim

Engasguei-me com um doce pedaço de fruta da época e pensei – “Porquê parar?”
A doçura era absolutamente apaixonante e os aromas que se libertavam dos seus sulcos, hipnotizavam-me os sentidos à medida que avançava para o fim da refeição.
“Só mais um pedaço” – pensei engolindo ainda em seco, tentando ultrapassar a intensa sensação de ardor que me arranhava a garganta.

Era ainda cedo, o sol brilhava bem alto e a tarde apresentava-se longa e sem compromissos de maior.
Repousei então tranquilo, enquanto trincava mais um pedaço de tão suave perdição. Inundava-me entre sabores, absorvia vitaminados sucos e perdido entre pensamentos desconexos, preparava-me para continuar.

“Venha mais um!” – Disparei sem pensar.

Não demorou a chegar, ainda mais apetecível que o anterior, e já sem medo ou rodeios, devorei-o sem respirar.
Acabava de comer o mundo, só eu e aquele pedaço de vida que me entregavam inerte, leve de alma e ansioso por se juntar à vontade que me fazia salivar.
Já saciado, a gula furiosa de uma ausência sentida atacava-me agora.
Calmamente, respirei e disse para mim – “Mal não pode fazer…”
Pouco demorou até dizer em tom de brincadeira: - “É mais um para a mesa 5, que a fruta é saudável e não engorda”
Logo voltou, e com ele trouxe não um, nem tão pouco dois, mas sim um pequeno cesto que protegia cuidadosamente quatro pedaços de um pecado que já pouco tinha de original.
Eram igualmente perfeitos, de uma simetria exemplar, de um colorido vermelho fogo e com a penugem de uma recém-nascida ave de rapina. Eram perfeitos.
Atirei-me sem pensar, seguindo o caminho já traçado por um desejo desenhado a régua e esquadro. Devorei-os sem falas, pausas ou sequer um olhar em redor. Esquecia-me de respirar e já sem fôlego, continuava a consumir impulsivamente os frutos do meu desejo.

No fim, já sem prazer, dei por mim a pensar num campo de flores, num caminho feito de pedras, num lago repleto de peixes e numa macieira a ligar a composição.

Tirei férias de ti

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