sexta-feira, junho 01, 2012

Certezas

Vejo-te e não sinto nada

 A ilusão dissipou-se sorrateiramente, palavra após palavra, espaço após tempo; todos os sentimentos escritos para a eternidade, depósito imutável de memória que parecia suposto realimentar-te na minha mente. Tantas promessas foram feitas em nome de emoções que pareciam cheias de verdade... Como poderei eu, digna alma submissa à sentimentalidade, quebrar com toda a clareza que me era assobiada por um paradoxal coração?

Chego-te perto; os nossos olhares cruzam-se; não sinto nada 

 Foste-me um terço da vida. Perdidos anos de privações em função de necessidades que não eram de ninguém. Eras frequentemente mais que ela, mais que a liberdade, mais do que eu conseguia ser sozinho.  Idolatrava-te de uma forma tão pura, tão bem intencionada e honesta, que apenas a mais barbara traição me faria rejeitar-te. Quanto jurei para mim próprio, a eterna saudade que guardaria no peito como chama sempre acesa, celebrando eternamente o amor verdadeiro; quanto me alimentei dessa miragem depois da separação.

Agora, aproximo os meus lábios do teu rosto; sinto o cheiro dos teus cabelos; toco a tua pele; olho-te nos olhos e não sinto nada 

 Que me aconteceu? Apenas três anos passados após sete volvidos; certamente estimo o comum das nossas vidas, aprecio convictamente as partilhas que tanto me fizeram crescer, mas mesmo o afecto que resta afunda-se vagarosamente ao tentar encontrar uma via por onde existir.
 Curioso, como tudo é engano quanto acompanhado pelo baralhar do tempo; todas as certezas e alegrias, toda a doçura das mais ingénuas convicções. Os mais velhos contaram-me que o tempo tudo cura, mas só agora vejo o quão rapidamente ele actua sobre o tipo de firmeza que deriva de um longo, assumido e consumido amor.

Adormeço o teu filho nos meus braços; não te reconheço. Sinto-me apaixonado por tão pura e doce criatura, mas em relação a nós, não sinto nada

1 comentário: