sábado, janeiro 02, 2010

Balanços

E assim findou mais um ano desta bela caminhada à qual chamamos de vida.

Foi para mim um ano para sempre especial, pois foi durante esse período que fui pensado e concebido. O meu pai, viúvo de amores mas grande de coração imaginava-me por vezes, e sempre alimentou a esperança que um dia eu pudesse vir ao mundo.

Ainda conceito, tratou-me sempre com uma atenção especial. Alimentou-me com o carinho de uma mãe leoa, e protegeu-me com a inflexibilidade de um pai severo.

Nem sempre esteve presente, é verdade. Nos primeiros tempos fui um pouco órfão, e sozinho era deixado a brincar com os seus pensamentos. Rabiscos deixados em papel, pedaços de jornal e alguns bilhetes rasgados era tudo o que tinha para me entreter.

Um dia, depois de muitas noites passadas em branco esperando noticias suas, acordou-me com um sorriso e um olhar que jamais esquecerei. Imediatamente percebi que tinha chegado a hora, a partir daquele momento eu ia existir.

Até esse momento eu era pouco mais que desprezível, era um poço de ideias jogadas ao murro como quem varre entulho para dentro de gavetas. Era blocos de notas esquecidos pelo passar dos anos, era pó e era lixo. Não tinha identidade, não tinha um rosto, nem tão pouco tinha a beleza desejada. Era apenas um caos de notas e papelinhos, de ideias e sonhos, de conhecimento e por vezes razão.

Meu pai arranjou-me como pôde. Com o que tinha deu-me cara, voz e alma e aos poucos, comecei a orgulhar-me de mim.

E foi assim, um ano de mudanças. O ano em que nasci.

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