
Era uma vez um jovem nascido em Portugal. Vivia numa semana em que os mistérios da compreensão entre as mãos que o criaram deixavam de ser obscuros e percebendo que a razão é um cantinho muito especial na mente de cada, o conjunto das experiências que antes de existir o moldaram faziam agora todo o sentido. Afinal, era só mais uma semana de desafios, de dúvidas, mudanças, aprendizagens e de olhos bem abertos a novas realidades. Tinha agora vinte cinco. A família ostentava-o (como sempre), e entre esse manto primitivo e confortável fazia por mostrar finalmente parte daquilo que o fazia segurar tal conjunto de crenças. Talvez nada tivesse sido em vão... Tudo era parte de um bloco, qual super estrutura finamente conectada por pequenos pontos em cruz; Era um quadro começado no inicio do tempo mas do qual só podia interpretar as mais recentes representações. “Talvez as escolhas não existam de todo...” Assim invalidava as desconfianças e identificadas as pontes por onde podiam trocar as espalhadas camadas desse puzzle multidimensional, tomavam-se agora partidos numa luta, que tendo deixado de ser luta mostrava apenas uma forma de agir perante novas aquisições.
Sem dúvida os devaneios de uma tela recentemente passada pareciam agora uma piada de mau gosto, um hino triunfal à falta de humanidade transportada por anos de comunicação deficiente e de orgulhos demasiado ignorantes para sequer serem motivos. As razões eram sabidas; a falta daquele pedacinho de compaixão que nos fizeram deixar no berço tinha-o feito misturar o existir e o ser.
Depois de uma taça de morangos brilhantemente cobertos por chantilly, via a situação criada naquele redondo de experiências como um pequeno mal-entendido; um piscar de olhos no momento certo, um ruído subatómico que se sente sem se notar, um lapso de uma vida passada ou a visão deturpada por substâncias xamânicas e na moldura seguinte, o suave doce creme tinha sido trocado por maionese... Faziam sentido os mal entendidos; “Afinal, quando nos deixamos confiar uma só taça de morangos com maionese pode foder todas as boas intenções”
Felizmente, os seus infinitos debates com cada uma das suas mentes não tinha apenas servido a esquizofrenia mas tinha-o também preparado para este tipo de deformações da realidade e assim, o nascimento de um novo ser suportado por ocultas nuvens de inquietação fazia-o sentir revigoradamente feliz.
Era uma vez um jovem nascido no Bangladesh. Vivia numa semana em que as flores que vendera pouco lhe davam de comer, mas pouco interessava; A força de uma natureza superior transmitia-lhe a energia que as suas raízes guardaram com os milénios e a capacidade de adaptação a qualquer tipo de moldura dava-lhe uma dose de realismo que envergonhava quem para ele olhava. Afinal, era só mais uma semana de desafios, de duvidas, de mudanças, aprendizagens e de olhos bem abertos a novas realidades. Tinha agora 20 anos. A família não sabia dele à meses (como sempre), e entre esse natural abandonar do berço, fazia por continuar a mostrar tal conjunto de convicções. De qualquer forma, tinha que as manter para sobreviver... Tudo fazia parte de um todo, de um destino que o trouxera ao mundo e que com pancadas desajeitadas o empurrara até aquele momento de clareza; Não interpretava nada, o passado nunca lhe tinha dado de comer e o futuro... bem, “Que interessa o futuro se não tiver pão e agua...” Assim, desconfiava do destino e identificadas as pontes por onde podia trocar acções por alimento dava passos de felino na esperança que as ténues passagens não se dissolvessem com o andar.
Olhava em volta, respirava milhões de vidas a cada instante; A vida parecia-lhe sempre uma piada de mau gosto, um hino triunfal à decadência da humanidade e ao desequilibro daquele micro-ponto do universo. Não lhe cabiam as razões, o espaço tinha sido ocupado por reflexos; Tinha deixado à muito de ser, somente existia
Depois de mais uma flor brilhantemente mascarada de esmola, via a situação ali realizada como um brutal abuso de consciência mas rapidamente a fome fazia-o focar-se na próxima agradecida violação das suas necessidades; um piscar de olhos no momento certo, um ruído subatómico que se sente sem se notar, um lapso de uma vida passada ou a visão deturpada por substancias xamânicas e na moldura seguinte, mais uma flor podia dar lugar a alimento... Só existiam mal entendidos; “Afinal, se confiar na justiça do dia-a-dia na melhor das hipóteses sou preso”
Felizmente, os seus infinitos e miseráveis exemplos de vida tinham-o preparado para este tipo de deformação da realidade e assim, a continuação de um existir suportado por ocultas nuvens de inquietação fazia-o sentir revigoradamente feliz.
Era uma vez uma noite. Era só mais uma como tantas outras, poluída, histericamente iluminada, pavorosamente povoada por invólucros que um dia contiveram algo mais que um numero.
Um era Outro existia; entre as realidades dos dois micro-cosmos uma barreira de luz deixou a verticalidade habitual e em jeito de repouso deixou-se adormecer entre os olhares destas criaturas. A fantasia desapareceu, as diferenças morreram sufocadas por lufadas de ar, os números que os prendiam somaram-se, as alianças que os separavam dividiram-se... os sorrisos fundiam-se como estrelas e perante tamanha troca de energia o tempo parou. As flores deixaram de existir, os hinos de ter razão; a verdade não era mais projecto, era o suporte físico que os unia.