segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Pura

Depois de um longo adiar, finalmente encontramo-nos.

Nunca te estranhei, mas talvez as desconfianças alheias, alguma suspeita tivessem levantado perante toda a tua bondade. De qualquer forma, sempre procurei concluir acertadamente, e assim sendo, caminhei descontraidamente até ao número 26 de tão mal chamada rua. O nome invocava vingança, mas o aspecto, pouco de incomum tinha quando comparado com qualquer outra rua de Atenas. Depois de observar as campainhas, e de com esforço me lembrar do nome que me disseras, toquei à que me pareceu ser a correcta, e com um impaciente bem-estar, esperei ouvir a tua voz simpática no pequeno e gasto auscultador.
Mandaste-me subir, e sem muito em que pensar, apenas subi.
Lá estavas tu, sempre com o teu estilo, descontraída, rebelde, bonita e com um sorriso que sempre se abriu para me receber. Cumprimentei-te, retribui-te o grande sorriso, e seguindo o teu olhar ternurento, segui-te até à sala.
A sala era um espaço só teu. A decoração era mínima, e consistia numa mistura de coisas que sempre existiram com aquilo que te foi pertencendo, e nesse peculiar complexo de cores e sabores, tinhas criado um cantinho onde qualquer alma podia descansar.
Trocámos impressões sobre como o nosso encontro tinha sido por tanto adiado, e depois de amigavelmente me fazeres um café, atirámo-nos ao que realmente interessava.
Enquanto o fumo subia, as almas elevavam-se a um nível que por muito tinha deixado de encontrar. Não me tinhas enganado, nem tão pouco eras a pessoa descontraidamente fútil que me queriam fazer ver, e sem mais qualquer espécie de preconceitos, entregamo-nos à conversa.
Não sei por onde começamos, mas certamente seguimos a rotineira troca de palavras com que começam todas as amizades, e assim, o tempo foi passando, o café foi-se ingerindo, e o fumo continuava a subir pelas paredes daquela pequena tenda de prazeres.
Falavas-me agora daquilo que praticavas para sobreviver, e em sintonia, partilhava-mos um pouco da revolta que sentíamos sobre o que nos rodeava. De repente, numa mistura de risos e olhares relaxados, escondeste as tuas jóias e transformaste-te num outro ser. Eu, ainda que um pouco admirado com tão peculiar proeza, não pude deixar de me deliciar com aquilo que apresentavas. Eras mais uma vez, tudo aquilo que querias ser, e numa sempre convicta postura, encontravas-me enquanto te descobria.
Mostravas-te cada vez mais eu, e pela segunda vez desde que aqui cheguei, senti que encontrara alguém com quem podia conviver eternamente. Não paravas de me surpreender. Falávamos de pequenas grandes convicções, de sinceros desejos e de como no dia-a-dia, ultrapassávamos a íngreme descida que nos faz seguir em frente.
As horas iam passando, e numa subtileza muita caseira, momentos de puro deleite caiam aos nossos pés, como se de partículas de pó se tratassem.
Ensinaste-me o teu falar; Tentei por rápido aprender. A tua aptidão para as línguas era claramente superior, mas com a paciência sempre intacta de uma sensata tutora, encontravas a melhor maneira de me fazer entender.
Depois, partilhamos o nosso interesse pelo gravar dos momentos, pelo poder dos símbolos, e de como, a cada vontade de nos expressarmos, encontravamos uma maneira de a imortalizar. Não entendemos a escrita do outro, mas o partilhar de eleições, foi mais um momento para guardar.
As horas já iam altas, e a noite já sussurrava sobre nós. Assim, separei-me daquele massivo conforto, e fiz por continuar.
Quando me preparava para te abandonar, pois todos os bons momentos têm um tempo para serem apreciados, mostraste-me a tua antiga armadura, e desprevenido, apanhaste-me numa mal disposta incapacidade de te ajudar. Senti-me minúsculo, não sabia que dizer. Penso sempre que existem problemas de que me posso fazer esquecer, e sem que encontre alguém que me faça ver a realidade, ignoro que o sofrimento caminha ao lado do mais normal dos dias.
Estava estupefacto, e a cada segundo mostravas-me mais profundas marcas que te tinham moldado de uma maneira pouco desejada. No entanto, mostravas-me isto com o mesmo sorriso humilde e carinhoso com que me mostravas as tuas recordações de infância, e como se nada tivesse sido, continuavas a deixar-me sem palavras que valessem.
Mais uma vez, tinhas-te mostrado muito mais que aquilo que aparentavas ser, e sem querer tratar-te de uma forma diferente da que até ali te tratara, despedi-me com um sorriso, um cumprimento, e a promessa que nos encontraríamos mais vezes.
A porta fechou-se, e com o peso de uma consciência do tamanho do universo, a vazia escada que me rodeava parecia agora mais real que nunca. Revia-te na minha mente, e numa desesperada tentativa de encaixar toda a informação, fazia por reconstruir a imagem que até ali tinha feito de ti. Pareceste-me naquele momento, muito maior que eu, e confuso, imaginando-me no teu lugar, sofria, sabendo que a qualquer um podia assim acontecer. Desorientado, desci a escada embalado pelos pensamentos, e sem mais te conseguir apagar, pus-me a caminho de outra casa.

Guardei-te, mas espero poder guardar-te um pouquinho mais neste pedaço da minha vida.

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