sábado, outubro 27, 2012

Campanha













Na génese da imaginação
Habita um regimento de regras
Paradoxais aparentes
Construtivas inerentes
É a razão que tudo forja
E nela nada se sente

Tacteio sem fim a beleza
Do céu, dos mares e planetas
Sinto enquanto sem pressa
Procuro na ordem um cais
Mediador de ismos banais
Que sirva por fim a descrença

Encontro em tudo resposta
Infinitamente correcta
Trago-a em repetidas apostas
Juramentos que a razão não quebra
Mas que no final das contas
Me leva à deriva nas ondas que a imaginação ostenta

Paradoxal sensação
Que não invoco nem tento
Reprimes com acidez a canção
Cáustica melodia da razão
Perturbas-me, adestras-me
Em ti tropeço e me sento

O que me prende e me move?
O que me agita e serena?
O que me chega e me foge?
Que me conforta e despega?

Sou produto da matriz
Dualidade que o caos juntou
Mas invertido o processo
Os mortos não estão à escuta
Perseguindo o retrocesso
Transforma-se existência em luta

Infinita campanha sem alvo
Faz circular energia
Num labirinto perpétuo
E que no final do dia
Apenas revela o destino
Chegado o instante final

quinta-feira, outubro 25, 2012

Sair

Assim teremos que ser, capazes um dia, de uma ambição terrena como é a da rosa cujos espinhos fortalece em tentativas exasperadas para mais tarde se difundir, abrindo aos ventos seu doce perfume floral e revelando nas meninas seu arqueado multicolorido de pétalas.

 Assim teremos que ser, como o jardineiro paciente, desarraigando o calculismo daninho da terra corrompida, esvaindo-a de vicissitudes regadas por oceanos de melancolia mal tratada.

 Assim teremos, observando o fogo alimentado nas gerações, que ser capazes de um dia extirpar as raízes que se escondem, vorazes predadoras, hibernando no vazio que subsiste em negrume apenas iluminado pela ténue incandescência que habita a fronteira desse espaço isolado pelas chamas.

 Agora, temos que sair e encontrar as forças activas do espírito que elevam a vontade de procurar o belo na vida das coisas.

quarta-feira, setembro 19, 2012

Pensar II

 Encosto-me, confortável nas previsões que lisonjeiam o que não existe. Espero que o fumo dos especulativos cigarros construa, que as borras dos divinatórios cafés concretizem e sem nunca vacilar na realização do inumerável, aguardo um futuro que não é. 

 Escorrem assim as marés, na continuidade de um vazio preenchido pelo olhar dos homens, pelos sentidos da matéria inteligentemente distribuída. Sei-me nada, ou pelo menos, nada reconhecível no conhecimento da cultura que me cingiu a criação; sinto as forças preenchendo o espaço amplo que fantasmagoricamente me agrega e da mais profunda das fontes da alma, não evito o querer devorador que me contrai o destino.

 A lua cheia espreita-me a cama, os sonos repetidos e sonhos inconsequentes de quem nunca preferiu abraçar a realidade. Conto-lhe assim os meses, agradecendo cada momento, desprezando a inércia que persiste procurando o inevitável repouso na mais longa prova de resistência concebida pela mente animal.

 Gostava de falar comigo próprio, reconhecendo-me por inteiro na saúde da nespereira que me adoça o Verão, mas agora, espero ainda por algo que não existe e que na sua complementar ilusão me afasta da grandiosidade do que sou.

sexta-feira, julho 13, 2012

Pensar

 Impávida e serena, acompanhas o que passa sem a turbulência do quotidiano; imóvel, crescendo lentamente em direcção à vida que o céu transporta. Sei que me sentes pois revejo-me na tua sensibilidade; capaz de aceitar qualquer destino, sem mente que trai, sem um pensar que afasta dos motivos; serves-me de espelho ainda que não me conheças. Atiras-me aos olhos tudo o que em nós difere e o que me fere fatalmente em ti não existe. É a força da tua diferença que me atinge, como raio de luz, sempre tão igual mas que nunca se repete.

 Agora que o pensar mais me bloqueia, entendo as barreiras que se levantam quando a liberdade carece de sentido. É essa liberdade, a que não tens nem precisas, que é carrasco do homem quando o amor não chega, que descomplexas sempre que te revejo. É essa inutilidade emocional que em ti se representa, ausente de desejos e ambições, repelente de memórias seleccionadas que tão bem te faz ser e que me permite tão bem estar, agora, quando a sorte de apenas ser não tenho, mas a possibilidade de te ver consigo.

sexta-feira, junho 01, 2012

Certezas

Vejo-te e não sinto nada

 A ilusão dissipou-se sorrateiramente, palavra após palavra, espaço após tempo; todos os sentimentos escritos para a eternidade, depósito imutável de memória que parecia suposto realimentar-te na minha mente. Tantas promessas foram feitas em nome de emoções que pareciam cheias de verdade... Como poderei eu, digna alma submissa à sentimentalidade, quebrar com toda a clareza que me era assobiada por um paradoxal coração?

Chego-te perto; os nossos olhares cruzam-se; não sinto nada 

 Foste-me um terço da vida. Perdidos anos de privações em função de necessidades que não eram de ninguém. Eras frequentemente mais que ela, mais que a liberdade, mais do que eu conseguia ser sozinho.  Idolatrava-te de uma forma tão pura, tão bem intencionada e honesta, que apenas a mais barbara traição me faria rejeitar-te. Quanto jurei para mim próprio, a eterna saudade que guardaria no peito como chama sempre acesa, celebrando eternamente o amor verdadeiro; quanto me alimentei dessa miragem depois da separação.

Agora, aproximo os meus lábios do teu rosto; sinto o cheiro dos teus cabelos; toco a tua pele; olho-te nos olhos e não sinto nada 

 Que me aconteceu? Apenas três anos passados após sete volvidos; certamente estimo o comum das nossas vidas, aprecio convictamente as partilhas que tanto me fizeram crescer, mas mesmo o afecto que resta afunda-se vagarosamente ao tentar encontrar uma via por onde existir.
 Curioso, como tudo é engano quanto acompanhado pelo baralhar do tempo; todas as certezas e alegrias, toda a doçura das mais ingénuas convicções. Os mais velhos contaram-me que o tempo tudo cura, mas só agora vejo o quão rapidamente ele actua sobre o tipo de firmeza que deriva de um longo, assumido e consumido amor.

Adormeço o teu filho nos meus braços; não te reconheço. Sinto-me apaixonado por tão pura e doce criatura, mas em relação a nós, não sinto nada

nobres escravos

Mais um dia vergonhoso neste país de mentiras. Tenho vergonha de pertencer a este povo, orgulhoso de ousadias à muito enterradas, iluminado pela falta de conhecimento que lhe foi cumprido... Encontramo-nos dependentes da escravatura, sempre audaciosos na passividade enquanto nos enrabam dia após dia, hora após hora, minuto após minuto; viram-nos uns contra os outros, transformam-nos em soldados propagandistas, alimentam o ódio em todas a frentes e fazem-nos feder em tamanha troca de atrocidades. Mete-me nojo a permissividade das muitas mentes; mete-me nojo a magnificente confiança nascida da estupidez; metem-me nojo as verdades eternamente incontestadas; metem-me nojo as necessidades cultivadas através da publicidade disparatada e mesquinha; metem-me nojo os inatingíveis, aparentes deficientes da razão. Somos o povo competitivo nas actividades mais idiotas, fanático e inglório, eternamente movido pela negação de qualquer responsabilidade sob as preferências dos outros. Tradicionalistas cegos, conservadores apenas nos julgamentos alheios. Mete-me nojo o atraso alimentado pela inveja que cai sempre bem na conversa de café. A luxúria, infectante muito natural nos oportunistas que vangloriamos como heróis nacionais. Não estou revoltado; não apelo à ira. Deixo apenas aqui a minha mágoa e a certeza que quanto mais amo a nossa existência mais nojo me mete esta pesada mentira em que todos concordámos acreditar.

segunda-feira, maio 21, 2012

Bagagem













Abraça sem preconceitos as diferenças da viajem, pois, quando um dia voltares, tudo aquilo que eras vai inevitavelmente estar à tua espera.

domingo, março 25, 2012

Simbiose

Quero adorar o mundo na forma mais pura, festejando o culto da vida na simbiose dos corpos e emoções. Quero tratar como nos sinto, sem enredos nem dramas, apenas nós, parte que existe, que vibra em uníssono quando perto se toca; Sinto a presença da realidade que oprimo, tentado aceitar-nos como equilíbrio mantido à custa de impulsos escondidos. Não posso separar-te as emoções, o corpo, a história, o contemplar pelos olhos, pela pele, pela boca... Quando existimos, existimos igual, sempre demasiado nós para negar uma troca, uma dança que corteja e celebra a vida que transportamos.
Somos Homem e Mulher, lados sexuais da criação, eternamente unidos pela ligação que não sabemos mas resiste, que gostávamos não querer mas acontece; Somos um sempre que somos nós. Podemos fugir não agir ou ignorar, mas o reflexo das emoções apenas deixará de surgir quando os 2 corações deixarem de bater.

quarta-feira, março 21, 2012

Nós VII

Penetram-me as vozes que existem; As de agora, que ecoam a sabedoria acumulada desde a génese, qual sinfonia permissiva, simbiótica intemporal, combinando cada pedaço de matéria, reflectindo todas as sensações abertas à consciência numa voragem cónica, nunca desprovida da razão que lhe impõe a geometria.
Existo numa verdade eterna, no confinamento de um espaço e tempo aparentes, tentado em mim dissolver as ideologias que nos dissolvem, fazendo o círculo girar e manter-se em equilíbrio. Este rodopiar devorador, criador pela visão, instrumenta-nos, maquina preciso ao passo de períodos que ainda não nos existem.
Sou regra, forma por detrás da verdade, transformando-me sem opções, sem vontade mentida, deixando girar, livre para seguir a ordem do Universo.

Queremos ser mais que a razão, ser o objecto contemplado, mordiscado e cumprido pela sinceridade humilde que pertenceria à ilusória objectividade da criação. O propósito não chega para entender a virtualidade do ego, das barreiras levantadas por miseráveis milénios de ostentação premeditada. Inquirimo-nos procurando respostas, vasculhando significados onde o significado não somos.

Sei-me Ferramenta; Sei-nos Contemplação

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

Escravo













 Embebedo-me em ervas, aromatizantes, conservadas na minha mente, como suados escravos secando ao sol agoniando a privação de liberdade. Não agonio com eles, pois nao sendo a liberdade retida, apenas anseio na esperança de a poder alterar. 

 Sinto-me no presente, sinto-me em mim próprio e torno-me pesado dentro de um corpo que não me permite voar.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

Thoughts












Art is the result of a brief exposition of the unconscious over the reality
Conscience aware us while the unconscious whisper us the coordinates
The result of Art is the recovery of glimpses of a major puzzle lost within

quarta-feira, novembro 23, 2011

Acontece

A puta da lente não tem zoom

Ainda assim, marcamos uma posição; Levamos adiante algo que não se afigurando muito, faz com que os dias sejam tão mais coloridos e harmoniosos.
É o realizar de curtos sonhos, de gentis condões maduros de esperança, de Primaveras de aptidões ainda marcadas por Invernos demasiado rigorosos.

Ainda não é Verão; O culminar arrasta-se inquieto, mas com a ajuda de um tempo que apenas corre num sentido continuamos a sonhar, sabendo que apenas sem nunca tentar não transporemos aquela lente sem zoom.

Acontece

terça-feira, novembro 22, 2011

Parto












Parto deixando uma saudade que já não perdoa
Abandono tentativas de racionar uma espiritualidade animal
Guardo remorsos que não são meus
Leio o esquartejar das vontades temidas

Já ninguém aplaude
Nunca o fizeram..

Tratam de me sarar queixumes que ainda não são dor
Descuidam-me a alma com o mesmo egoísmo que fataliza o destino

[No fim]
A total entrega e coerência deixam tanto a desejar quanto as falas mansas que desatinados me entregam na procura por respostas imediatas

segunda-feira, novembro 21, 2011

Roads

(...) The roads weren't so harsh as he had thought before; they were just narrow bridges, gentle lines in the silhouette of a bigger landscape made of earth and blood.

They can be a home - he thought. Not a home made of stone or wood, but instead, a home made of emotions, where the freedom conquered by our ancestors will always drive us away, preventing those ghostly endless voices that keep us from moving further.

sexta-feira, novembro 11, 2011

Jogos

Tudo se acumula e até a falta de hábitos gera enormes quantidades de informação

Fujo aos hábitos... Sempre fugi. Acabei por me tornar tão bem sucedido que a certo ponto a fuga tornou-se mais que hábito; A fuga tornou-se criação.

Dessas saídas soltaram-se aos poucos os reflexos de uma identidade em gestação e transportados por uma fuga que sempre se mostrou leal, fui-me transportando repetidamente para um plano onde me permitia admira-los uma segunda vez.
Era como um jogo de encontros e desencontros, um brincar às escondidas com diferentes partes do meu ser; Como partidas de xadrez com regras redefinidas pela razão a cada novo desafio.
Valia a razão ser de lento transformar, o que deixava tempo para me estudar a cada jogo e perceber as falhas transportadas por cada um dos meus residentes.
Com o tempo, os jogos tornaram-se cada vez mais justos assim como mais reais.

A fuga criou inúmeros jogos, os jogos tornaram-se prazer e do prazer nasceram hábitos novos, desta vez gerados num universo profundamente ligado a uma existência minha ao invés de num qualquer alheio lago de caprichos e esperanças.

Conclusões










Finalmente entendi;
Eu cresci com minhas mães

quarta-feira, novembro 02, 2011

Pedaços V

Depois de tanto me permitir errar, surgiu-me uma nova sensação

Pela primeira vez não é dever, nem tão pouco poder... Sinto-o saber; Um saber quase tão profundo como aquele me permite suportar a vida que carrego. Não é apenas o saber tímido de quando testava os conhecimentos adquiridos à luz das sensações, mas algo verdadeiramente enraizado no meu ser.
É uma realidade que me entrega impossibilidades desejadas à tanto... Impossibilidades erradicadas pela primeira vez, aberturas para um espaço inexplorado na biblioteca da minha experiência.

Sinto-me carregado por forças que eu próprio pus em movimento mas que percorreram um longo caminho até me atingirem em pleno pensar.
Já não me importa a direcção dos meus dias; A partir daqui o conhecimento tomará conta das decisões e uma consciência aumentada tratará de apaziguar o espírito animal.

Se foi a capacidade de recusar instintos que fez de nós capazes de nos revermos no universo porque continuamos a querer comportar-nos como animais?

domingo, outubro 16, 2011

Inícios

Não são lágrimas ainda...

São apenas sorrisos manchados de emoção, rubros olhares, afortunado sentir de agradecimento pelos mágicos momentos vividos.
Lembro-vos, sento-vos, amo-vos... Não serão nunca recordações; Serão pedaços de verdadeiro amor, de vida criada, de total entrega, estima invencível e de uma total liberdade de preconceito. Serão sempre a minha primeira casa neste novo mundo acordado.

Serão parte de uma família que carregarei enquanto me transportar. Serão sempre sangue do meu sangue, pares esculpidos em simultâneo pelas mãos da humanidade que nos restou.

Casa

E como a força e flexibilidade que são características de a quem pertence tal majestoso amparo, também as colunas que a suportam atingem quem lá passa com uma serenidade original e construtiva.

Foi-me o verdadeiro abrigo; E não por a sua proeminente posição me suportar os volúveis desejos de viajante mas, porque a família que me apresentava fazia daquele período da minha vida uma harmoniosa compilação de momentos irrepetíveis.

Parto do que foi uma casa: Do que é uma casa; do que será...

terça-feira, outubro 11, 2011

Canais

Uma voz morta acompanhava um frenesim de euforia afogado em asfalto; Atropelavam-se informáticas, derivavam-se interesses desmotivados.

O cheiro de milhões de pinheiros condenados a um caos prematuro entrava pela pequena janela e partilhando-me com um ar demasiado condicionado, lembrava-me que mesmo condenada a natureza continuava a ser a mãe de todos nós.

Partilhavam-se assim os valores que guiavam agora nossas vidas e ainda que ambos entendesse-mos que estes não podem ser metidos em balanças, descrevíamos sem medo momentos assinados com o nosso sangue.