Como em qualquer outro dia, arrastei-me perdido na cama tentando contrariar as marcas da noite anterior. Cansado desisti...Saltei repentinamente com a súbita imagem de um qualquer dever por cumprir e rapidamente acordei da embriaguez que profundamente me embalava.
Numa súbita onda de lucidez fiz a mala que jazia despida no chão, passei pelo pálido espelho da entrada e enquanto trincava uma maça sem sabor encontrava-me já a caminho.
Conduzi os habituais sessenta minutos por entre asfaltos de gente sisuda e sem realmente o desejar dei por fim com aquele horrível edifício que sustentava a minha vida.
Mergulhei na monotonia do costume...
Sem que desse conta do tempo, tinha chegado a hora de abandonar o barco.
Sai sem pensar, e respirando o ar fresco da noite como se do último dia se tratasse, segui o meu caminho por entre os velhos moinhos, prometendo a mim mesmo finalmente descansar.
Ao pousar a mão no bolso do longo casaco preto, senti um fraco vibrar. Procurei exaustivamente, mas tudo o que encontrei foram cartões e papeis, rebuçados e algumas moedas.
Deixei de sentir o pulsar; A chamada perdeu-se.
Calmamente procurei nos restantes bolsos, pensando eventualmente tratar-se de mais um café de ultima hora numa qualquer maquina ali perto.
Foi com um breve olhar que o meu corpo parou.
Imóvel, perdi-me em pensamentos ao ver aquele nome no castigado ecrã.
Parei para respirar...
Depois, preparei as palavras, inspirei intimamente uma última vez e devolvi a chamada.
Do outro lado surgiu tímida a voz mais doce da qual tenho memória. Seus lábios cantaram um simples “Olá” e o meu dia acendeu.
Guardarei por anos aquele dia; Lembrarei para sempre aquela chamada;
São assim os dias felizes, inesperadamente únicos.






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