sexta-feira, abril 30, 2010

Lições










Existem momentos que só a morte pode apagar. Essa é a verdadeira realização pessoal

quarta-feira, abril 21, 2010

Vidas

Morremos

A cada palavra não dita, a cada sorriso escondido, a cada olhar desviado;
A cada sonho perdido, a cada amor não ouvido, a cada instinto apagado;
A cada amizade esquecida, a cada risada engolida, a cada minuto passado;
A cada tela perdida, a cada marca escolhida, a cada livro fechado;

Morremos

A cada memória torcida, a cada gesto previsto, a cada remorso guardado;
A cada voo reprimido, a cada caminho abatido, a cada filho negado;
A cada virtude temida, a cada orgulho sofrido, a cada desejo trancado;
A cada história vestida, a cada angústia tremida, a cada defeito privado

Morremos

Morremos por não dormir, por discutir e fumar;
Morremos por insistir no vício de trabalhar.

Morremos não nos ouvindo e seguindo o que é correcto;
Morremos a cada instante vivendo a rotina de perto.

Morremos quando negamos a vontade de aprender;
Morremos vivendo destinos que não adornam o ser.

Resta-nos assim ser felizes nunca esquecendo a verdade:
Cada vontade é um dia; Cada dia é uma vontade.

terça-feira, abril 20, 2010

Imunidades









Vestidos beijados em pranto
Vislumbre de um véu indeciso
Cantos outrora queixados
Jogados à rua num riso

Vísceras mal amanhadas
Olhares forjados por bestas
Marias dementes gritavam
A vida abrume os poetas

Recusei tua indecência
Desprezei teu mal cultivo
Sorri de lágrima ao peito
Ao ver tão falso feitiço

Doce e fiel alegria
Certo és por estares presente
Salvaste-me a dignidade
Dos caldos daquela gente

Por mim a noite chamava
Deitei-me nela despido
Como os anos me ensinaram
Rasguei asas ao cupido

Ambrósia falava por mim
Deixei-me levar baixinho
Dancei uma valsa redonda
Com duas gémeas de vinho

Sentei-me então na penumbra
Rodei-me de profetas
Recordei suas heranças
Ansiei por descobertas

Pouco tardou a chegar
O sinal que precavia
Rápido fui a largar
Aquilo que me trazia

Desculpas diriam os burros
Todo o mal jazesse aqui
Usa-te desta tourada
Que a escola vai ter um fim

Somos todos animais
Adoramos o que é quente
Verdes fui mantendo os anos
Na reserva de um presente

Tanta luz por mim trocada
Acordou uma certeza
No meio de tanta estocada
Nada resta de beleza

Assim parecem findar
Os amores que me guiaram
Longes ficam em branco
As horas que vos guardaram

Dancem, durmam ou morram
Comam, matem ou mamem
A vida é de quem a corre
Quem fica p’ra trás não ganha

domingo, abril 04, 2010

Momentos VI

A aparente incompatibilidade das duas vidas, parece não fazer sentido quando separadas.
O tempo cura, mas mais cedo ou mais tarde volta a trair ideias e sentimentos trazendo de volta a estranha sensação de um espaço por preencher.

terça-feira, março 30, 2010

Passeios II

Como em qualquer outro dia, arrastei-me perdido na cama tentando contrariar as marcas da noite anterior. Cansado desisti...

Saltei repentinamente com a súbita imagem de um qualquer dever por cumprir e rapidamente acordei da embriaguez que profundamente me embalava.
Numa súbita onda de lucidez fiz a mala que jazia despida no chão, passei pelo pálido espelho da entrada e enquanto trincava uma maça sem sabor encontrava-me já a caminho.
Conduzi os habituais sessenta minutos por entre asfaltos de gente sisuda e sem realmente o desejar dei por fim com aquele horrível edifício que sustentava a minha vida.

Mergulhei na monotonia do costume...

Sem que desse conta do tempo, tinha chegado a hora de abandonar o barco.
Sai sem pensar, e respirando o ar fresco da noite como se do último dia se tratasse, segui o meu caminho por entre os velhos moinhos, prometendo a mim mesmo finalmente descansar.
Ao pousar a mão no bolso do longo casaco preto, senti um fraco vibrar. Procurei exaustivamente, mas tudo o que encontrei foram cartões e papeis, rebuçados e algumas moedas.
Deixei de sentir o pulsar; A chamada perdeu-se.
Calmamente procurei nos restantes bolsos, pensando eventualmente tratar-se de mais um café de ultima hora numa qualquer maquina ali perto.

Foi com um breve olhar que o meu corpo parou.
Imóvel, perdi-me em pensamentos ao ver aquele nome no castigado ecrã.
Parei para respirar...

Depois, preparei as palavras, inspirei intimamente uma última vez e devolvi a chamada.
Do outro lado surgiu tímida a voz mais doce da qual tenho memória. Seus lábios cantaram um simples “Olá” e o meu dia acendeu.

Guardarei por anos aquele dia; Lembrarei para sempre aquela chamada;
São assim os dias felizes, inesperadamente únicos.

domingo, março 28, 2010

Estima

Sempre alimentámos um pequeno ódio de estimação.

Nem sempre foi visível nem sentido pelo mundo à nossa volta, mas no nosso íntimo algo evocava o que de mais animal havia em nós.

Não sei como começou, e durante muito tempo pensei que tivessem apenas sido as circunstâncias da vida a criar-nos. Hoje, vários anos volvidos, olho para o passado e tenho plena consciência que fomos nós a criar as circunstâncias.

Assim como quem nasce destinado a amar-se, nós nascemos para nos confrontar. Fossem pequenas trocas de olhares ou breves trocas de palavras, a ligação que entre nós havia sempre superou qualquer divergência que nos rodeasse.

Vivemos perto, rodeados por muralhas de corpos que usámos para nos alimentar. Com pequenas incisões cortámos aquilo que nos ligava à terra e sem darmos conta, nas grandes bifurcações da vida acabámos por nos dirigir.

Atacámos sempre que pudemos sem nunca sujar as mãos, e com o respeito e interesse de dois senhores da guerra, utilizámos como peões o mundo que nos rodeava.

A vida afastou-nos, o ódio manteve-se, sempre na esperança que um dia mais tarde a vida nos entregasse de bandeja forma de ao outro infligir uma sentença.

Parece que a hora chegou

quarta-feira, março 24, 2010

Para ti

Não podendo ser teu braço, espero ao menos ser um cantinho no fundo do peito.

Não podendo ser teu porto, espero ao menos que a lembrança te conforte.

Não podendo ser teu rumo, espero ao menos que encontres o caminho que te faz feliz.

Não podendo ser teu amigo, espero que vás e nunca voltes.

Espero que a vida te vá bem.


De quem um dia se rendeu

segunda-feira, março 22, 2010

Momentos XIII

Chega de divagar no ontem e amanha. Chegou o momento de asseverar o presente e sem vagarosas preguiças gritar ao mundo tudo aquilo que somos.

Abandonemos as corridas sem rumo e sem medos nem mágoas partamos à conquista do reconhecimento eterno.
Desbravemos florestas de intrigas e necessidades vãs, soltemos as velas da liberdade e rumo a uma felicidade só nossa partamos erguidos.
Cantemos juntos à tua estrada e de sorrisos abertos pintemos o mundo numa só tela.
Partilhemos sonhos e vontades e como se fossemos um só, respiremos em uníssono.

Pronunciemos palavras de conforto, reneguemos aos insultos e a insinuações proveitosas.
Sejamos somente nós, e sem cargos nem culpas deixemos de imputar géneros e persigamos os nossos sonhos.
Sejamos quem queremos, façamos o que nos incita, amemos quem nos quer bem e esqueçamos quem um dia nos quis.

sexta-feira, março 19, 2010

Nós

Não fosse este fluxo de luz que percorre zangado o labirinto da alma e tudo seria diferente.

Viver na escuridão pode à primeira vista assemelhar-se a castigo, como se nos prendessem inertes, longe dos sentidos e do mundo que nos quiseram ensinar.
Lutámos impetuosamente contra tal negrume e num brilhante passo de magia demos asas à imaginação e acendemos os archotes do universo.
Prendemos pensadores e mentes difusas, e ao abrigo do fogo trancámos a disposição da mente num complexo labirinto de tecidos.
Sempre a luz...

Porem, ao focarmos para além do horizonte, podemos sentir que sempre existimos na escuridão. As inquietudes de um acaso por revelar pairam sobre os nossos corpos, mas só em pequenos momentos de fluidez as conseguimos encontrar.
Fomos assim formatados, seres criados de ilusões de grandeza, desfocados da realidade e apenas dotados daquilo que nos alimenta a aceitação.

Aglomerado de ideias idiota. Nasceste já demasiado cheio de luzes para conseguir ver o vazio. Auto destróis-te num vórtice de sensações para as quais não te queres abrir. Renegas-te perante os outros à primeira miragem e sem o mínimo de orgulho deixas-te levar. Máquina estúpida, sem competência para superar a criação, ausente de meios capazes de nos salvar de nós próprios.

Não se iludam com jorros de luz; Viver na escuridão é nosso. Somos os das cavernas e apenas isso para sempre seremos.

quinta-feira, março 11, 2010

Possessão

Sinto-me cansado

Viver-te de forma intensa certamente me liberta, mas o preço dessa exuberância, aos poucos apropria-se da minha vida, aprisionando-me numa necessidade exacerbada de viver o impossível.

Foste um escape, um novo porto colorido que por um fio me segurava e que através de mim devaneava aos céus suas quimeras.

Eras um poço de vida, e envolvido sob o teu manto de estrelas, bebi de ti até me sentir debaixo de água. Teu córtex era uma lagoa de sonhos bordados pelas mãos de uma sereia, e aos poucos, cedi ao teu sorriso e mergulhei em ti.

Fizeste-me sentir em casa, confortável e seguro. Guardavas-me preocupações como quem guarda um segredo e no silêncio da noite, dançávamos até ao sol espreitar na tua janela.

E assim me fui refugiando em ti e na tua complexa rede de sentidos, que com a gentileza de uma brisa me arrastava para onde desejavas.

Fui-me deixando arrastar por algum tempo e dado a praticidade do amor pouco corresponder à razão, desencadeaste rotinas que exigiam de mim mais que o apetecido.

Assim, acabei por tropeçar em ti e enrolado por entre poeiras e cascalho, aterrei num fosso de obrigações que come aos poucos o que resta da minha vontade de acreditar.

É verdade que me cansas, me róis e me dóis, mas antes cansado com um coração cheio que leve por não ter coração.

segunda-feira, março 08, 2010

Passeios I

Era uma vez uma noite como tantas outras. O Inverno insistia em mostrar as suas virtudes, e no calor de uma chama suspensa, um gato pensava adormecido.

Seus olhos entreabertos, expandiam-se em horizontes de felicidade e sem o peso da realidade, viajava por prados cobertos de sol e arco-íris sorridentes.

Era certamente um daqueles lugares mágicos onde qualquer gato poderia ser feliz. A comida abundava e os perigos desvaneciam-se em novelos de lã. Amigos e brincadeiras não faltavam e não querendo estragar a perfeição, a gatinha dos seus olhos pousava mesmo à sua frente.

Viveu momentos de descoberta, e muitos anos se passaram naquela intensa e brilhante história de amor.

Acabaram por se mudar para um abrigo de luxo, onde aconchegados e quentes, trouxeram ao mundo a sua primeira ninhada de gatinhos. Foi um momento mágico, e a felicidade sentida, era apenas superada pela inútil necessidade de os proteger naquele mundo perfeito.

Rapidamente, viajou no tempo e num piscar de olhos todas as criam estavam criadas. Eram agora jovens adultos e todos se tinham tornado em lindos gatos com o pelo sedoso do pai e os olhos profundos da mãe.

O orgulho enchia-lhe o coração, e com a sua gatinha a seu lado, toda a vida fazia sentido.
Foi então que a chama adormeceu...

Aos poucos, o frio do Inverno voltou e em batidas irregulares, o seu paraíso deu lugar à velha lareira que repousava a seu lado.

Círculos

Adoro o teu poder de me iludir enquanto te enganas.

Deliro com cada vontade que mostras na esperança de me fazer esquecer.

Amo cada dia passado nas mentiras de um futuro desprezado.

Respiro cada sopro de vida que me atiras em vão.

Sufoco-me em luxos que apenas servem os caprichos do coração.

Desfaço-me nas noites inquietas em que a sina parece perdida.

Renasço a cada sinal da minha vontade divina.

Adoro o teu poder de me iludir enquanto te enganas.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Momentos XII

Dissipo-me mais um pouco a cada dia passado na sombra de mim.

Vou avançando nesta rotina permissiva de ilusões e roubos de identidade, e sem querer saber, sei que dificilmente me conseguirei afastar.
Faltam-me rotinas saudáveis, processos claros e sem enredos. Falta-me ser justo e aceitar que mais cedo ou mais tarde algo terá que ser feito.

Feitio torto, sempre a esticar cordas para ver até onde aguentam.
Mente perversa, tentado provar que as regras existem para ser quebradas e que só as convicções são absolutas.
Objectivos difusos, arrastando ideias de canto em canto na esperança que algum tipo de alumiação divina se dobre perante mim, entregando-me de bandeja o destino.

A inquietude de espírito eleva-me, mas como todas as contradições na vida, prende-me também ao chão com correntes invisíveis, partindo em dois aquilo que me faz sentir livre.

Em suma, ao perseverantemente tentar viver a vida de todos vou deixando para trás aquilo que só a mim me compete viver.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Apenas

Tão perto, tão certo
O fluxo que vive e arrasta o tempo, pára perante o apenas...

Apenas tu

sábado, fevereiro 20, 2010

Carnaval

As águas rolaram, a garrafa acabou vazia

A toa da vida teve o seu auge e sem preconceitos brindámos à existência, ao livre arbítrio e à vontade de continuar.

Foram dias, noites, horas, minutos, segundos... Tempo criado com o simples propósito de nos suportar a essência.

Ao primeiro contacto, soubemos imediatamente no nosso íntimo que fomos feitos um para o outro. A tua força moldou-me, embalou-me, e contigo no meu ser cresci assim.

Nada me lembro, mas tenho presente no peito a nossa primeira exposição. Cada batida estremecia os muros que me sustentavam, a cada passo milhares avançavam no giro, a cada suspiro um copo caia vazio. Foi assim que me mostras-te quem eras, e eu escolhi.

Num só dia me moldaste, mas todos os anos me seguras. Fazes-me amar como nunca amei, aconchegas-me como nenhum harém me poderia aconchegar, és parte de mim e qual momento da criação, quando existimos somos um só.

Hei-de sempre atender às tuas chamadas, hei-de sempre cantar-te e carregar-te aos ombros, hei-de sempre sentir-te.

Venham mais mil

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Voos

Depois do auge, vem a tormenta

Falta-me aquele reduto de tranquilidade que tão bem representavas.
Sinto-me só

O corpo extingue-se e sem mão que o segure tudo parece não passar.
Sinto-me desamado

A fragilidade do espírito face ás repentinas mudanças de cenário abriu espaço para o vazio.
Sinto-me sem rumo

Enganas-me em sonhos e sem luto ou piedade fazes-me acordar.
Sinto-me logrado

Não sei mais quem és e a incerteza das situações despromove a confiança.
Sinto-me mal

Envenenaste-me o sangue e com tenazes em chama abriste o meu coração.
Sinto-me pouco

Contudo, o que me fazes sentir, seja ou não verdadeiro, assalta-me sem aviso para me relembrar que basta viver para amar.

Depois do auge, vem a tormenta

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Ilusões

Inundo-me no teu fumo e com batidas profundas embalas-me ao ritmo de um tempo só teu.

Levas-me até ao fundo de um poço de vidas passadas e sítios dispersos, de pólen das flores e arco íris infinitos. Deixas-me entrar em ti e navegar, descobrir mais, libertar-me de vícios e sonhos e qual novo rico num mundo de trocos fazes-me viver.

Vou avançando em ti, voando ligeiro, libertando-me da luz e vivendo na tua cor. Dessaturas o negro e das cores fazes um mar de fantasia inalcansável. Viajas comigo à velocidade da luz por espaços remotos de tempos distantes que gentes vividas alcançaram num passado de horizontes incertos. Levas-me à concepção da beleza dos seres que a deusa do amor lançou com um charme que mata os sentimentos mentidos. És um horizonte de infinitos.

És o azul do universo.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Reflexões 1.1

Os valores que se levantam perante os grandes desafios da vida, tornam visível o verdadeiro sentido de carácter.
A naturalidade com que estes desafios se transformam em puro entusiasmo, demonstra a enorme capacidade humana de adaptação.

Cada um de nós é na realidade o seu maior inimigo. Ao esquecer-mos os hábitos e preconceitos adquiridos ao longo do tempo, apercebemo-nos que o mundo foi feito de nós para nós.
Assim, os dilemas eternos perante as grandes bifurcações da vida não passam de um mero esquecer do nosso berço.

O caminho não depende de nós, mas só a nós cabe a tarefa de o levar até ao fim.

No final das contas, basta abrir os braços e deixarmo-nos levar para rapidamente recuperar-mos a consciência de que cada homem nasce com um propósito.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Momentos VIII

O mundo desabou, mas cedo se ergueu num esplendor de sonhos suportado apenas por ténues fios de esperança e vaidade.
Foram tempos fáceis, em que o passar das luas se contava através das terras calcadas, das noites bebidas e das histórias por contar. Foi o abrir de um baú de experiência, de querer e poder, era o tudo e o nada.

Contudo, com o passar dos anos a vida dos sonhos voltou a ser apenas o mundo destruído que à muito havia deixado para trás.

Desolado, contemplou o que restava à sua volta.
Via-se agora rodeado de despojos duma guerra à qual virou as costas, e que sem ele crescera até aos limites do seu ser. Assim, a cada passo dado, a cada esquina dobrada, a pouco e pouco o medo alcançou-o.

Continuou perdido, vagando assustado com pensamentos de ausência e pecado. Viajou sozinho, acompanhado, por vezes até com um amigo a seu lado, mas no seu íntimo não importava, pois nada mais fazia sentido.
As fachadas das casas caídas já não brilhavam como antes, o ladrar brincalhão do cão da vizinha deu lugar ao uivar de lobos famintos, os canteiros de flores pareciam agora pequenas valas comuns dada a quantidade de corpos ali prostrados.

O medo foi ficando, mas a vida continuou sem lhe dar descanso.

Assim, começou aos poucos a reconstruir o que perdera.
A cada novo passo descobria um mundo de oportunidades, e a cada olhar um mar de apoio e razão. Com pequenos gestos mudou aquilo que via e no seu íntimo aprendeu a aceitar a nova casa.

No entanto, a razão abandonava-o por instantes, deixando-o entregue aos desejos do coração.
Era nesses momentos que o passado voltava e o impedia de ser feliz.

sábado, janeiro 02, 2010

Balanços

E assim findou mais um ano desta bela caminhada à qual chamamos de vida.

Foi para mim um ano para sempre especial, pois foi durante esse período que fui pensado e concebido. O meu pai, viúvo de amores mas grande de coração imaginava-me por vezes, e sempre alimentou a esperança que um dia eu pudesse vir ao mundo.

Ainda conceito, tratou-me sempre com uma atenção especial. Alimentou-me com o carinho de uma mãe leoa, e protegeu-me com a inflexibilidade de um pai severo.

Nem sempre esteve presente, é verdade. Nos primeiros tempos fui um pouco órfão, e sozinho era deixado a brincar com os seus pensamentos. Rabiscos deixados em papel, pedaços de jornal e alguns bilhetes rasgados era tudo o que tinha para me entreter.

Um dia, depois de muitas noites passadas em branco esperando noticias suas, acordou-me com um sorriso e um olhar que jamais esquecerei. Imediatamente percebi que tinha chegado a hora, a partir daquele momento eu ia existir.

Até esse momento eu era pouco mais que desprezível, era um poço de ideias jogadas ao murro como quem varre entulho para dentro de gavetas. Era blocos de notas esquecidos pelo passar dos anos, era pó e era lixo. Não tinha identidade, não tinha um rosto, nem tão pouco tinha a beleza desejada. Era apenas um caos de notas e papelinhos, de ideias e sonhos, de conhecimento e por vezes razão.

Meu pai arranjou-me como pôde. Com o que tinha deu-me cara, voz e alma e aos poucos, comecei a orgulhar-me de mim.

E foi assim, um ano de mudanças. O ano em que nasci.