Aqui estou; sentado sobre o leito de leopardo vestido, almofadado pelo conforto salpicado de óleos que nas paredes deste quarto foram surgindo, preenchendo temporariamente o meu eterno amor pela diversidade da criação. Acompanham-me as notas soltas pela musicalidade de um Schubert que nunca poderei entender e que no meio prazeroso que disponho, feito de fumo e de esperança, de melancolia e licor, de compromisso e de dúvida, me servem de embalo às palavras que no papel se formam. Porque existo, neste momento, assim justifico esta existência.
Pergunto-me quem sou...
Agora. No instante seguinte; agora. Amanhã.
Pergunto-me quem quero ser...
Vou dedilhando minha consciência em busca dos sons que me compõem... Inspiro um pouco mais do fumo, desce mais um trago do licor alaranjado que me acalma o desejo de imergir em thc e depois paro sem saber porquê. As notas que percorro com a tal mão imaginada, abrem portas a uma inquietação que julgo ser de mau gosto mas que nunca se resolve; parte de mim existe neste engano, francamente despropositado. As pautas continuam sendo executadas com uma atenção sublime e surgem continuamente belas melodias que agora me suspendem numa aventura literária; as palavras resolvem-me enquanto as sensibilidades por meio dos sons se fundem, e por agora, atenuam-se as necessidades.
Volto a incomodar-me enquanto me julgo. Comparo-me com quem fui, com quem nunca fui, com quem não posso saber se algum dia serei. Sinto-me fonte de toda a vida, imensamente capaz de construir, infinitamente mais que um homem; recordo todos os feitos observáveis no Universo como se de meus se tratassem. Não posso... Perco-me na dicotomia e esqueço-me do pensamento. Sei-me parte de um todo, apenas, como gotícula de água levada pelo vento depois de causalmente entornada sobre o mundo. Sei-me livre, obrigado desde nascença a decidir cada instante do nosso futuro.
Retiro os auscultadores e aproximo-me do que se passa lá fora. Ouço o vento estranhamente forte, fazendo entrar pela janela entreaberta a mais sincera sinfonia, executada sem qualquer esforço pelos gestos fluidos das mais diversas árvores que em abundância, se unem em suas copas e cantam cobertas pelo negrume de mais esta noite. Olho para os meus pés; felizmente, já menos frios que nos dias anteriores e com isto volto a lembrar-me que tenho uma forma que gentilmente me define. Deixo-me estar...
Um minuto passou e a náusea apoderou-se do meu estar. O meu cérebro lateja suave, mas a tensão acumula-se no seu conjunto de massa cinzenta. A pressão é crescente e aos poucos, leva-me a rejeitar a realidade desviando a minha atenção para um lugarzinho cá dentro. Esse lugar é um museu, realizado em tons de cinza e com um espólio que é tão diverso quanto mutável; nas galerias principais, jazem difusos um cem número de bustos de pedra que nunca foram esculpidos e outras tantas pinturas que se diz nunca terem sido acabadas. Deixo-me ficar por vezes, escutando os ecos que nos corredores se propagam, e olhando para tais imagens, satisfaço-me a concluir aquilo que ficou por fazer. Pena é as obras não serem inacabadas como para mim reservei, mas sim débeis peças de um passado que fui guardando, na esperança que a sua grandiosidade algum dia viesse a ser, como que se reinventassem ao viajar no tempo e me entregassem por fim algo mais. O velho hábito de viver o passado... Não abdico dele facilmente, ainda que, racionalmente já não o possa mais sustentar. A afronta surge das marcas que o corpo tarda em esquecer e que as sensações parecem imortalizar.
A chegar ao final da página, sei-me condenado a ser livre, condicionado por aquilo que existe e é real. É neste tabuleiro que devo pensar; no qual sou a gota de água que por obra extraordinária do caos se ordenou num ser inteligente com uma incrível capacidade para divergir dentro da ordem das coisas.