O que é isto a que chamo de consciência?Bem, primeiro vamos recuar 15 anos na minha vida…
Usualmente, ao pensar na palavra consciência ocorria-me pensar automaticamente na nossa espécie, Homo Sapiens. Nós, seres humanos, os derradeiros detentores da consciência e conhecimento, a raça que quebrou todos os limites e fronteiras, aqueles que, tendo absoluta noção do individuo e do ambiente que o rodeia, conseguiram moldar todo um planeta para satisfazer as suas necessidades.
Foi o que me ensinaram na escola, e não vendo mentira em nenhuma destas palavras (apenas orgulho por fazer parte de tão brilhante irmandade), acho que me guiei por elas durante os anos que se seguiram.
Depois, o tempo foi passando, e a curiosidade da adolescência aliada a uma forma saudável de pensar, apenas pelo prazer de pensar, fez-me começar a acreditar que a consciência não era um assunto assim tão linear. Não me lembro de onde partiu a ideia, mas de alguma forma, na minha mente, não via grande diferença entre a minha consciência e a de uma comum pedra.
Pois… Quando assim exposta, a ideia tinha algo de idiota, e sem grandes ferramentas que me permitissem extrapolar de uma forma sucinta e assertiva as ideias que me assaltavam, nunca fui muito fundo no que toca a discutir este assunto com outras pessoas.
De qualquer forma, lembro-me de algumas bases… Lembro-me de ver o mundo como uma enorme “inteligência”, no sentido em que, toda a matéria se organizava de alguma forma, e no fim, tudo encaixava e fazia um tremendo sentido. Não podia ser só acaso… Ou, ainda que fosse, era um acaso que de alguma forma tendia para a organização… Bem, continuando, lembro-me de com o passar dos dias ver cada vez mais padrões de inteligência em tudo à minha volta; Nas plantas, nos animais, nos simples objectos do dia-a-dia, e assim, percebi que a enorme “inteligência” em que pensava, não passava de um conjunto de infinitas pequenas inteligências, que no seu todo formavam o incrível cenário que me rodeava. (Muito mais tarde, a Teoria do Caos em conjunto com a Geometria Fractal, fizeram-me entender que no fundo, eu até era um puto inteligente, mas, continuemos com a minha ingénua ignorância…)
Partindo deste principio, e revendo na minha espécie aquilo que a consciência nos proporcionava, cheguei à tal comparação entre os humanos e a pedra.
Para mim, a nossa consciência não passava de um mecanismo que nos permitia ter presente, aquilo que necessitávamos para sobreviver no nosso meio ambiente. Quanto à pedra o mecanismo era exactamente o mesmo, não obstante a ausência de vida na pedra tornar a sua consciência muito menos complexa, mas a função era igual. Se reduzíssemos a pedra e o ser humano até à menor partícula, o tipo de inteligência que íamos encontrar não era em nada diferente… Portanto, fiquei durante mais uns anos com esta ideia, mas sem nunca me envolver muito ao pensar nela.
Muitos anos passaram desta vez e as antigas ideias ficaram guardadas no fundo do baú.
Começava agora uma busca, pelo que eu chamava de uma “consciência o-mais-absoluta-possível”, e devagarinho, encontrava-me num ponto, em que tentava perceber porque raio a nossa consciência enquanto espécie, é tão influenciável por estímulos que pouco têm a ver com a nossa sobrevivência.
Tinha deixado as minhas antigas ideias esquecidas, mas ainda assim, o meu subconsciente começava agora a dilatar a ideia da pedra para algo diferente. De certa forma, não tinha aprendido nada em todos estes anos que me levasse a desacreditar a minha crença de criança, mas por outro lado, via agora na pedra uma forma de existência em tudo mais perfeita que a nossa. Intrigava-me o facto de que a consciência que ingenuamente eu tinha apelidado de menos complexa, funcionasse melhor no contexto da adaptação ao meio ambiente do que a nossa superior consciência, que nos permitiu tantos magníficos feitos ao longo da história.
Ainda assim, a pedra não era o melhor exemplo, pois a diferença da vida desempenhava aqui um papel um tanto ou quanto revelador. Alem disso, não só a pedra tinha uma existência demasiado perfeita, como tanta perfeição junta deixava de ter interesse ao fim de uma hora a olhar para ela. Assim, virei-me para algo mais próximo e comecei a tentar perceber a diferença entre nós e o resto dos seres vivos.
Esquecidas as pedras, os organismos vivos eram todo um novo mundo de experiências, um tanto ao quanto surreais, que facilmente me faziam viajar entre pensamentos.
O processo a que chamamos vida tinha uma serie de características interessantes, mas, achava peculiar piada à parte da reprodução, que, aliada à enorme capacidade de adaptação dos seres vivos, dava origem a um quase infinito leque de formas de vida. Mais piada, tinha pensar que todas elas partiram da mesma forma de vida inicial… Mais uma vez assaltava-me a ideia de que do simples nascia o caos, mas que, de alguma forma ele sempre tendia para a organização. Era um paralelo bastante forte com o tipo de inteligência que vira quase 15 anos antes na consciência, mas, onde estariam a consciência e a evolução ligadas? (Acabei por perceber depois, mas tratamos disso mais tarde)
Digamos que deixei essa pergunta para trás durante uns dias, e foquei-me em voltar à discussão da consciência, tendo agora, muito mais do que uma pedra para comparar com a nossa evoluída espécie. Tinha agora um leque infindável de formas de vida, que com milhares de milhões de anos para se desenvolver e adaptar plenamente, me dariam certamente uma boa comparação em relação à nossa ainda muito recente espécie.
Foi ai, ao começar a analisar os pequenos detalhes que fazem dos seres vivos, Seres Vivos, que comecei mais uma vez a pensar que não havia entre todos nós grande diferença naquilo a que eu chamava de consciência. Das plantas aos animais, das bactérias aos fungos, em todos eles encontrava o mesmo tipo de comportamentos muito básicos e altamente funcionais, que levavam todo o organismo a render as suas necessidades de uma forma em tudo idêntica à nossa.
Todos precisávamos de energia, e todos tínhamos um metabolismo para nos manter vivos. Todos nos tínhamos adaptado das mais extraordinárias formas, na busca por essa energia. Todos reagíamos a estímulos e todos nos reproduzíamos de forma a manter-mos a espécie para alem do individuo. Por fim, toda a vida quando reduzida ao mínimo, era baseada na célula.
Com todas estas semelhanças, por muito que tivesse lido em contrário, achava agora que muito mais que a pedra, todos os seres vivos tinham exactamente o mesmo tipo de consciência. Nem mais, nem menos, mas exactamente o mesmo.
Via em quase todos eles o mesmo tipo de “sentidos”, e em muitos, não conseguia encontrar qualquer diferença. Conseguia encontrar na natureza todo o tipo de animais com sentido de experiência, de conhecimento sobre si e sobre o que os rodeia, um total estado de sensibilização para todo o tipo de estímulos, e ate demonstrações muito concretas de sentimentos.
Com tudo isto, os meus pensamentos multiplicavam-se, e começava agora a ter uma ideia ligeiramente diferente. Ok, na base toda a consciência era a mesma, mas, de alguma forma, nós enquanto seres humanos, mostrávamos tipos de comportamento que ainda que baseados nas mesmas premissas, tinham divergido para algo que em lugar algum na natureza podemos encontrar.
De alguma forma, parece que durante o nosso processo de desenvolvimento de consciência nos escapou qualquer coisa, pois, de todo o ser vivo que habita este planeta, somos o único que não funciona devido a causas internas.
Em algum ponto da nossa história, passamos de animais extremamente adaptáveis e inteligentes a animais semi-adaptáveis e com uma inteligência muito limitada. Limitámos tanto a nossa inteligência, talvez devido à nossa extrema adaptabilidade, que nos últimos milhares de anos esquecemos completamente aquilo que é instintivo para qualquer outro ser vivo; Esquecemos que fazemos parte de um todo, e que o todo só funciona, se tudo funcionar como é suposto.
Como é possível, que a maior parte de nós já não tenha uma real noção de quais são as nossas necessidades para sobreviver. Para muita gente, as necessidades básicas são um carro, um telemóvel e uma ligação à internet.
A reprodução, tornou-se uma forma engraçada e por vezes chata de colmatar um instinto que já se vê a desaparecer nos meios urbanos. Conseguimos ver milhões de mulheres que sentem repulsa pelo acto de dar a luz, outras tantas que conscientemente vêem uma carreira como um meio mais importante para a absoluta resolução das suas vidas e à ainda o grupo das que diz que ficar grávida vai estragar as suas brilhantes aparências.
Até o nosso metabolismo parecemos querer alterar nos dias que correm. Hoje em dia, come-se porque sabe bem e já ninguém quer saber se realmente está a comer o melhor para a sua própria saúde. É muito melhor comer um saboroso BigMac que é quase tão saudável como beber lixivia ao pequeno-almoço, do que realmente comer algo que contribua para o nosso bem-estar, que em última instancia, ainda dá jeito.
Bem, a sustentabilidade da espécie nem vou comentar, está à vista de todos o que a nossa grande consciência fez pela nossa continuidade e a do meio ambiente.
Assim, vemos hoje uma espécie humana que na sua maioria, já nem é adaptável, nem inteligente; São simplesmente escravos de um longo ciclo de desconsciencialização guiado pela economia, que no ultimo século tomou proporções cataclísmicas.
Assim, retiro tudo o que disse aquando dos meus infantis pensamentos sobre a igualdade de consciência entre todos os seres vivos. Sem sombra de dúvida, somos o ser vivo menos consciente deste planeta. Mais, dado que tentamos tão convictamente quebrar todas as regras que fazem de nós seres vivos, diria que já nem a esse título devíamos ter direito. Talvez lixo orgânico encaixa-se melhor na nossa definição.
Mas, quem quer saber disso, se podemos comer um Big Tasty, enquanto as leoas ainda tem que correr por comida…

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