quarta-feira, junho 23, 2010

Pedaços III

A procura ilumina. Crer torna possível

Ainda que muito esteja por preencher, as ansiedades adormecidas durante anos não param agora de se libertar de preconceitos, tornando-se aos poucos, muito mais que simples qualidades.
Sinto-me voltar a uma infância esquecida, viajando por entre estrelas à velocidade da luz. Vejo-me e revejo-me por entre caminhos paralelos e tentado absorver todas as soluções, alcanço inesperadas conquistas.
Sorvo galáxias de elementos irrisórios, absorvo pedaços de vida jogados à sorte. Viajo por distintos estados de alma, e acompanhado por latentes incómodos, talho à mão honrados troncos de virtudes.
A existência flui gentilmente, criando fieis ornamentos com que enfeito os meus dias. Testo-me, provo-me, reprovo-me, e aos poucos entendo em mim mais que algum dia ansiei entender.

Um simples acreditar, transformou o aprender

segunda-feira, junho 21, 2010

Momentos XVI

Novas vontades, novos desafios

A preguiça asfixiava-me à medida que os dias passavam. Flutuava numa certeza incerta de não estar a sugerir o caminho correcto; Procurava mudar.

Tentava agarrar um qualquer sinal que provocasse atenção, sem no entanto manchar uma imagem à muito esbatida pelos caprichos da insatisfação.
Sentia-me desiludido, inconformado com hipotéticas premissas, mas ao mesmo tempo, confortável com a triste rotina que vivenciava a cada dia. Parava cada vez mais, respirava cada vez menos.
Abandonei refúgios, lutas, artes e durante aqueles dias, entreguei a consciência a um sono profundo. Tentava travar a indolência que me consumia, mas logo chegava a inércia, cruel e capaz, arrancando à dentada vontades e servindo-a de bandeja a um destino qualquer.
Sentia-me mal por não contrariar. Sentia-me fraco por não saber trancar armários; Sentia-me preso.

Um dia, tudo mudou. O esperado aconteceu, libertando a minha mente de desculpas para fazer o mais correcto; Sem pensar, avancei.

A vida calmou o chamamento. Apenas me coube escolher o destino

quarta-feira, junho 02, 2010

Caminhos

Corro e vejo
Sinto e observo
Vivo e chego


Envolvo-me no teu verde. Absorvo os teus sabores. Respiro a tua intacta brisa e sem contemplações deixo-me embalar.
Tuas cores seduzem-me; Libertam-me da cinzenta carnificina semanal e sem dor retomam-me por completo. Despoluis-me o pensamento e acima de qualquer deus entregas-me a salvação.

Deixo-me parar

Olho em volta preservando na memória raios e sombras de luz que flutuam quietos cobrindo barreiras. Sigo caminho.
Balanço ao som do vento e acompanho a primavera. Os pássaros chamam-me e sem pouso onde sentar sigo o meu destino.
Aninho tranquilo nas estradas; Mexo com a paisagem, anulo ocasiões. Deixo o calor entrar e despido de pensamentos alinho-me com a natureza.

Sigo, paro
Sinto, observo
Descanso, vivo

terça-feira, junho 01, 2010

DIAS 16

Tenho lembranças. Dissipam-se no tempo

O mundo era enorme. Visto dos grandes globos que atentamente seguiam o quotidiano, tudo parecia não ter fim. As correntes de ar arrastavam objectos e sem me aperceber ao que assistia admirava facilmente.
Atentava as flores, os pássaros e as pessoas que passavam. Descobria no mar um infinito desconhecido e sem preguiça ou preconceito deixava-me levar.
Via algo novo a cada dia e com a convicção de presenciar algo memorável, debatia na minha mente conjecturas inconcebíveis. Era feliz a tempo inteiro.
As brincadeiras aniquilavam preocupações, os sorrisos escondiam fantasmas e o amor fazia crescer vidas. Trepava agarrado a figuras utópicas e tentando recriar a sua raça, criava-me lentamente. Era quem era.
Sem esquemas ou raivas escondidas reagia com instinto e sem medo de julgamentos era um livre aprendiz. Temia a pesada mão do desgosto.
Tinha amigos, desfazia amizades. Era verdadeiro, pensava-me fraco. Tentava encontrar-me, ainda que não o soubesse. Era mole.
Carregava um espírito de camaradagem que nada fazia ceder. Levava avante as vontades do grupo e nenhuma moral era demasiado alta para me impedir. Era tão mais forte do que pensava.
Era curioso. Demasiado curioso para saber dizer não. Demasiado espremido num invólucro pequeno, fazia tudo para me soltar. Encontrava-me aos poucos. Desencontrava-me constantemente.
Queria ser grande. A ânsia de querer ser mais que eu era apenas suprimida pelas constantes descargas de adrenalina suada. Tudo podia ser quebrado. Tudo podia ceder. Desafiava as leis da física sem saber com quem tratava e aprendia com mau trato que sua força é demais.
Voava com os pés na terra. Corria até cair no chão, saltava murros impossíveis e ao lado da morte passeava a brincar.
No fim dos dias, caía descalço numa cama aquecida pelos lençóis ajeitados com um beijo e sonhava até acordar.

Guardo tudo, presente no meu ser

segunda-feira, maio 31, 2010

Suspiros

Respirei-te

Senti-te por dentro, soube corar-te. As sombras passavam e nós ficávamos; Quietos, gentis, inocentes. Esperávamos entre embrulhos, mexíamos lábios, sentíamos sons. Absorvíamos essências esperando oportunidades. Víamos por dentro e suspirávamos traições.

Embalei-te suave, soaste lasciva. Perjuraste ternuras ao passo de caprichos; Ganhas-te fulgor, dobras-te gestos. Tremias-me o peito tragando prazer. Afastei bordados ansiando encontrar. Cuidávamos sentidos, entregávamos deleite. Largaste mascaras e despiste costumes. Corrias sem medos entregando poder. Vaidosa sorrias, fingias controlar. Adiaste costumes, quebraste correntes. Deixámo-nos levar.

Navegámos na transitória esfera da criação e com túmidas vontades inflamámos paixões. Libertei-me de mim, cedi ao teu ritmo. O ambiente encolhia, o tempo parava. Elevámos propensões e criámos redutos. Foi imortalidade efémera. Éramos impenetráveis, éramos um só.

Inspiraste-me

quinta-feira, maio 27, 2010

Suposições

Ainda que todos conjecturemos opiniões na busca de uma tomada de consciência, a presunção quando assumida fica mal a qualquer um

Somos na generalidade um povo que perdeu a capacidade de filtrar informação. Ao sermos bombardeados diariamente com todo o tipo de estímulos, e ao nos deixar-mos levar, deixamos ir também a essência de um decidir que tão bem nos caracteriza.
Não bastasse isso, o cada vez maior isolamento da espécie por detrás de panos e telas, de portas e caixas de cimento, leva a nossa perspicácia no que toca a entender os outros para um nível que só na infância fazia sentido.

Guiamo-nos cada vez mais baseados no que vemos viver e cada vez menos naquilo que realmente vivemos

Ainda que o mal faça parte da natureza humana, também o faz a presença no acto. Assumir posições é comum aos seres, cria carácter, ensina a crescer.
Mas, hoje não precisamos disso, somos demasiado ocupados para olhar nos olhos, demasiado ingratos para suportar lealdades.
Não passamos de tímidos preguiçosos que ao ver o seu lugar garantido no céu, deixaram de questionar se não será melhor o inferno.
Somos humanos desumanizados. Somos um produto. Somos menos que nós.

Vivemos num mundo de papel

quarta-feira, maio 26, 2010

Sombras

O carácter impessoal de um comentário, aliado a frases recorrentemente ouvidas durante a minha criação, levaram-me a pensar que a simbiose existente entre mim e quem me alimenta possa não ter sido compreendida da melhor forma.

Senti mais que uma sensação, senti um ataque... Debruçar-me-ei sobre isso mais tarde

segunda-feira, maio 24, 2010

Momentos XXV

Aproxima-se

Iremos fazer promessas, laços serão criados
Irei cantar em deleite e chorar medos malvados
Servirei gritos inglórios mascarados de presentes
Abrirei portas ao mundo sem nada mudar realmente
Guardarei as primaveras, como quem guarda postais
Cumprirei minhas vontades sem nunca pensar nos demais
Deixarei a liberdade que em tempos me enganou
Entregarei amizades que um longo curso criou
Mostrarei quem sou ao mundo levando causas avante
Serei feliz mais um dia ingerindo cada instante

Passou

As alegrias ficaram e pouco pensei no passado
Engoli ares de euforia e larguei fogo ao pecado
Senti na pele as pancadas que os deuses me largaram
Abracei homens distintos celebrando o que alcançaram
Segui caminhos traçados perseguindo o impossível
Trouxe tesouros e cores tornado a paz acessível
Rompi repulsas vividas e voltei a respirar
Corri tentado a sorrir vendo o juízo parar
No final tudo voltou e com janelas abertas
Promessas foram saldadas, foram feitas descobertas

Ficou

quinta-feira, maio 20, 2010

Sabores









Enquanto jogares palavras
_______________.Jogarei fora sentidos
Enquanto despires fachadas
_______________.Mal tratarei prometidos
Enquanto apartares valores
_______________.Fugirei do teu caminho
Enquanto provares falsidades
_______________.Acenarei sem carinho
Enquanto escolheres odiar
_______________.Seguirei outro destino
Quando mostrares lealdade
_______________.Direi: “É mais um café, por favor”

quinta-feira, maio 13, 2010

Pedaços II

Li outro dia algo que me acertou

Procurava à meses por aquelas palavras, mas sem sucesso continuava a tentar descrever numa frase tudo aquilo que havia mudado na minha vida.
A pergunta surgia frequentemente e com a calma pouco coerente que aparentava surgir das minhas expressões, divagava por entre aspectos, nunca conseguindo escolher o balanço correcto entre a descrição e os sentimentos.

Um dia, depois de mais uma manha passada entre notícias e discursos perdidos, dei com elas levitando sobre o fundo azul que se erguia perante mim.
Eram pouco mais de uma dúzia de palavras por entre uma pontuação mínima mas expressiva. O peso estava correctamente distribuído e dava foco a alguns dos meus sons favoritos. Encantou-me de tal forma que a procura terminou.

Tantos textos de famosos escritores e poetas havia lido e nunca de tal modo uma frase tinha descrito tão perfeitamente aquilo que à tanto queria expressar.
Só uma frase, sem floreados nem rodeios. Toda a minha convicção assente firmemente nas palavras certas, afastando qualquer dúvida ao mais céptico dos congéneres.

Senti-me idiota por nunca as ter conseguido juntar assim.
Deliciou-me conseguir naquele momento compreender a beleza e simplicidade da resposta.

“Sonhos loucos?! Ando a fazer deles os meus objectivos desde que descobri que não eram loucura!”

quarta-feira, maio 12, 2010

Introduções

Eu, sou apenas eu. Sou mais um. Sou parte de ti. Sou um Homem.

Encontro-me no dia a dia, por entre as ruas comummente calçadas pela natureza humana. Salto entre abrigos espelhados por fora e dentro formo alianças que sugerem imortalidade. Sigo meu caminho, respiro. Respiro tentando não me afogar. Vivo aqui, ali e também ao teu lado. Moro algures, sem casa. Defendo princípios, meus. Não tenho um lar, mas sim raízes. Guardo momentos, gosto demais. Tenho família, satisfação. Esqueço e acompanho. Encontro-me no dia a dia.

Eu, sou apenas eu. Sou parte de ti. Sou mais um. Sou um Homem.

segunda-feira, maio 10, 2010

Posições

Rasguei meia foto

Estava extremamente magoado com o que comigo fizeras. Meu sangue fervilhava iam já 7 dias e pelo caminhar da situação, o mais provável era começar a consumir-me violentamente para suavizar o desespero.
Não percebia porque tanto me magoavas com a tua ausência, nem o porquê de tamanha falta de apreço, afinal, nunca te tinha pedido mais que os habituais sorrisos.
Confundias-me as semanas, assumindo na perfeição o teu papel de mulher fatal. Brincavas com os meus sustentos, esperando saciar essa sufocante rotina indigesta que a vida te levou a aceitar.
Contudo, o meu íntimo chamava distante por ti, tratava-te como o presente de um passado longínquo e sem falsas expectativas mantinha-te comigo.

Foi assim até aquele dia

Naquela noite atingi o ponto de ruptura e pela primeira vez em tantos anos estava farto das inconveniências da tua atitude, da insensatez do teu carácter e dos teus orgulhosos caprichos.
Admito que continuava a sentir por ti um enorme carinho, mas de alguma forma, pela primeira vez na minha vida vi-te despida de paixão.

Assim, fui somente eu, sem mal nem preconceito, sem pudor ou medo de falhar. Fui sincero contigo, disse-te o que sentia e que à tanto tempo me atormentava os sentidos.
Prontamente soltaste sobre mim uma má sofrida onda de rancor. A tua acidez de espírito apanhou-me desprevenido e com um desiludido suspiro lembrei-me porque razão não conseguíamos durar.
Foi aí que a redoma de vidro onde te guardava tombou e espalhou pela sala toda a fantasia.

Senti-me ridículo

Senti-me ridículo por durante tanto tempo te ter suportado. Senti-me traído por todas as vezes que sem quereres saber te protegi. Senti-me inútil, ao ver aquela que amara ser absolutamente hipnotizada por hipocrisias tantas vezes criticadas.
Depois de tudo o que tinha passado, de ter enganado os sentimentos e de ter engolido orgulhos ao saber-te humilhada, não esperava tamanho despropósito.
O meu interior queimava-me de revolta. Nunca tinha sentido tal desapego pela tua pessoa e a minha inerente frieza tentava escapar ao deparar-se com tão insustentado tormento.

Inconscientemente, tudo se desvaneceu num pensamento.
Apaguei-te da minha vida.
Apaguei memórias, retratos, sons e sentimentos.
Destruí opiniões sustentadas apenas pelo coração e deitei fora os sorrisos que todas a noites me acompanhavam.
Foi poético. O momento da libertação inconsciente de todo um universo de sentimentos que à tanto me impediam de avançar. Foi triste.

Mais não deu

quinta-feira, maio 06, 2010

Encontros

Encontrámo-nos por acaso

Logo me pareceu que de algures te conhecia, mas nada na minha mente fazia referência a quem poderias ser.

Seria possível não te recordar?

Tinhas cara de menina, mas teu olhar transmitia uma sensualidade arrepiante. Teu belo sorriso agarrava-me ao balcão, tua pele libidinosa tocava-me em pensamentos e fascinado com tamanha mistura de sentidos resolvi avançar.
Segui até ti num passo discreto e com a timidez introvertida de quem se sente subjugado soltei um leve: Conhecemo-nos?
Instantaneamente olhaste para mim com teu doce sorriso e respondeste que sim.
Não me senti admirado com a resposta, mas estava agora mais curioso que nunca.

Como podia não ter reparado em ti antes? - pensei.

Contaste-me então a tua historia. Falaste-me do rio e das ruas encobertas, dos estragos e das noites bem bebidas, e rapidamente percebi o que me levou a esquecer-te. Foi só mais uma das minhas falhas no tempo, mais uma das semanas em que vivi debaixo de agua apenas subindo à superfície para respirar.
Agora que penso nisso, talvez a rotura no meu âmago tenha sido maior do que alguma vez imaginei.

Enfim, a vida tem destas coisas, ás vezes precisamos esquecer para mais tarde dar valor ao que podíamos ter ganho

quarta-feira, maio 05, 2010

Reflexões 1.2

Sempre me chamaram de egocêntrico por convictamente afirmar que sou o centro do universo

Não vou negar que alguns dos traços que tão bem me caracterizam não possam ser confundidos com um avantajado amor próprio , mas, olhando bem à minha volta, penso que nunca ultrapassei a barreira do que deve ser considerado um ego saudável.

Talvez estas acusações injuriosas se devam essencialmente à crescente dificuldade que a maioria das pessoas apresenta em gostar de si tal como é, pois nos dias que correm, o amor próprio é aparentemente visto como um privilegio e não como uma característica essencial à felicidade de cada um.

Tornou-se um género de convenção que hoje em dia só pode gostar de si próprio quem preenche uma serie de pré requisitos ditados por indústrias das mais diversas áreas, e que todos os outros (os inadequados) têm que arranjar uma forma de se juntar ao grupo, correndo o risco de serem vistos como pessoas à margem da sociedade.

Todos os tipos de meios de comunicação que nos rodeiam propagam mil e uma regras para definir a beleza, a postura, o que podemos ou não vestir, os tipos de amigos que devemos ter, o que devemos ou não comer e até aquilo que nos deve trazer boa sorte.

Todos temos de ter noção de nós próprios, dos nossos defeitos e virtudes, dos nossos princípios e sonhos. Todos devemos alimentar o nosso ego de uma forma benéfica.
Como diz um dos 250.000 anúncios que passam todos os dias na televisão, “Se eu não gostar de mim, quem gostará?”

Eu vou continuar a proteger com teimosia os meus princípios e vontades (obrigado pai pelos genes da intransigência). Todos nós somos únicos à nossa maneira, portanto parece-me correcto defender os meus genes com unhas e dentes, pois, bem vistas as coisas, é tudo o que posso esperar um dia deixar para a posteridade.

Mas, voltando ao centro do universo, e para aqueles que ainda não estão convencidos, podemos analisar a questão do meu pseudo-egocêntrismo de um ponto de vista mais técnico.

Visto que toda a informação captada pelos nossos sentidos (aquilo a que chamamos de realidade) tem uma velocidade finita, facilmente concluímos que aquilo que conhecemos como presente é na realidade algo que já se passou. Por exemplo, o que vemos a cada momento, não passa de algo que se passou à alguns instantes atrás, pois por muito rápida que a luz seja, ela demorou algum tempo a viajar até aos nossos olhos.
Assim sendo, podemos afirmar que a nossa consciência individual é o "local" mais actual do Universo pois tudo o que observamos faz parte do passado.
Sendo cada um de nós a entidade mais actual do universo, parece-me aceitável e livre de egocentrismos afirmar que sou o centro do universo.

Vistas bem as coisas, cada um de nós é o centro do seu próprio universo

terça-feira, maio 04, 2010

Pedaços I

Esta ânsia por auto-reconhecimento abala-me os dias e ofusca-me as noites. Não sei ao certo qual é a meta, mas sinto claramente algo maior chamar por mim.


Acordo em cada dia sentindo que parei no espaço, mas, olhando para os relógios à minha volta vejo que o tempo passa cada vez mais depressa.

Olho para quem me acompanha e vejo nas suas vidas um reflexo daquilo no qual me vou tornando. Luto por não parar, por recuperar todas as horas perdidas em sonos inférteis. Luto por aprender, requalificar capacidades que esqueci em função duma sociedade que não me conhecia. Luto por afastar os sentimentos que me ligam a este pedaço de terra a qual chamo vida.


Sou mal entendido


Nasci com a estranha capacidade de amar demais, mostrando de menos.

Toda esta frieza pela qual tantas vezes me apontaram o dedo, todo este desgosto por cada dedo apontado... É difícil encontrar quem reconheça o verdadeiro significado da palavra amizade.

Durante muitos anos, a cada novo grupo de pessoas, um novo eu foi criado.

Em cada ambiente tive uma nova imagem, e em cada pessoa uma sensação. Sempre senti dificuldade em mostrar o meu intimo, portanto, sempre me deixei modelar pelos caprichos do grupo, lutando ao mesmo tempo contra a realidade que eu próprio criava.

Foi um paradoxo interessante, este que me guiou durante tanto tempo.

Agora, olho para trás e vejo que simplesmente nunca tive a coragem de assumir realmente aquilo que tanto queria mostrar.

Hoje tento resolver essa equação. De uma vez por todas por os pontos nos i´s e aos poucos mostrar ao mundo que aquilo que conheceu não passava de uma imagem das suas mentes projectada numa tela desfocada.


Hoje marco posição


A vida é demasiado minha para não a viver ao passo das minhas vontades. É demasiado curta para atender a caprichos de falsos amigos e patrões, de impotências alheias e de regras duma sociedade regida apenas por interesses económicos.

Hoje vivo só para mim, para os meus amores, as minhas ânsias, os meus desgostos e felicidades.

É óbvio que com tanto eu, nem sempre é fácil explicar a quem me ama, que o meu amor não é menos verdadeiro, nem tão pouco mais coerente, mas que simplesmente a minha vida existe a uma velocidade diferente.

É nestas alturas, que por muito que o cérebro diga para avançar, o corpo tem que descansar.

Rodeio-me então daqueles que a dignidade foi deixando, e durante breves instantes, o meu mundo volta a ser aquele cantinho, o eterno berço de criança, deixando espaço aberto para a minha mente repousar.


A cada metro que limito o meu espaço, o meu tempo acelera a uma velocidade incongruente

segunda-feira, maio 03, 2010

Pretextos

Disseram-me outro dia que as desculpas não se pedem, evitam-se.


Sinceramente, nunca tinha realmente pensado sobre o assunto e humildemente aceitei a convicção.
Durante algum tempo achei que assim deveria ser e quem sabe, pois a memória já me atraiçoa, cheguei até a empregar a expressão num tom apreciável como quem finge recusar um perdão.
De qualquer forma, ainda que tenha por vezes tentado, nunca o consegui recusar.

Hoje, olho à minha volta e vejo que em todo o lado a desculpa foi banalizada, caindo em uso ordinário. Vivemos numa sociedade sem honra e servimo-nos cada vez mais do encanto dos sentimentos para tirar proveito da humanidade dos outros.
Uma desculpa sentida é um dos actos mais nobres dos géneros, é o reconhecimento do que somos perante o mundo, é o abrir dos portões da alma ficando suspensos perante a vontade de outros.

É poético pensar que o mundo poderia ser assim, sem desculpas, sem erros, sem mágoas ou orgulhos feridos. É agradável sonhar com tão serena fantasia...
Mas, se assim fosse como nos daríamos nós a conhecer? Como saberíamos então com quem poderíamos ou não contar?


Errar é humano


As desculpas são parte de nós, são os pequenos demónios que carregamos aos ombros e que por vezes não temos ousadia para expulsar. São os sentimentos de culpa que nos arrastam por caminhos lamacentos e que sem gritos de glória nos afastam dos corações alheios.
A desculpa é o sentir na voz de outros que a nossa vida faz sentido.


A cada desculpa que peço revelo-me, e aos poucos construo-me aceitando aquilo que sou.

Para quê esconder o que somos quando isso é tudo o que temos?

sexta-feira, abril 30, 2010

Lições










Existem momentos que só a morte pode apagar. Essa é a verdadeira realização pessoal

quarta-feira, abril 21, 2010

Vidas

Morremos

A cada palavra não dita, a cada sorriso escondido, a cada olhar desviado;
A cada sonho perdido, a cada amor não ouvido, a cada instinto apagado;
A cada amizade esquecida, a cada risada engolida, a cada minuto passado;
A cada tela perdida, a cada marca escolhida, a cada livro fechado;

Morremos

A cada memória torcida, a cada gesto previsto, a cada remorso guardado;
A cada voo reprimido, a cada caminho abatido, a cada filho negado;
A cada virtude temida, a cada orgulho sofrido, a cada desejo trancado;
A cada história vestida, a cada angústia tremida, a cada defeito privado

Morremos

Morremos por não dormir, por discutir e fumar;
Morremos por insistir no vício de trabalhar.

Morremos não nos ouvindo e seguindo o que é correcto;
Morremos a cada instante vivendo a rotina de perto.

Morremos quando negamos a vontade de aprender;
Morremos vivendo destinos que não adornam o ser.

Resta-nos assim ser felizes nunca esquecendo a verdade:
Cada vontade é um dia; Cada dia é uma vontade.

terça-feira, abril 20, 2010

Imunidades









Vestidos beijados em pranto
Vislumbre de um véu indeciso
Cantos outrora queixados
Jogados à rua num riso

Vísceras mal amanhadas
Olhares forjados por bestas
Marias dementes gritavam
A vida abrume os poetas

Recusei tua indecência
Desprezei teu mal cultivo
Sorri de lágrima ao peito
Ao ver tão falso feitiço

Doce e fiel alegria
Certo és por estares presente
Salvaste-me a dignidade
Dos caldos daquela gente

Por mim a noite chamava
Deitei-me nela despido
Como os anos me ensinaram
Rasguei asas ao cupido

Ambrósia falava por mim
Deixei-me levar baixinho
Dancei uma valsa redonda
Com duas gémeas de vinho

Sentei-me então na penumbra
Rodei-me de profetas
Recordei suas heranças
Ansiei por descobertas

Pouco tardou a chegar
O sinal que precavia
Rápido fui a largar
Aquilo que me trazia

Desculpas diriam os burros
Todo o mal jazesse aqui
Usa-te desta tourada
Que a escola vai ter um fim

Somos todos animais
Adoramos o que é quente
Verdes fui mantendo os anos
Na reserva de um presente

Tanta luz por mim trocada
Acordou uma certeza
No meio de tanta estocada
Nada resta de beleza

Assim parecem findar
Os amores que me guiaram
Longes ficam em branco
As horas que vos guardaram

Dancem, durmam ou morram
Comam, matem ou mamem
A vida é de quem a corre
Quem fica p’ra trás não ganha

domingo, abril 04, 2010

Momentos VI

A aparente incompatibilidade das duas vidas, parece não fazer sentido quando separadas.
O tempo cura, mas mais cedo ou mais tarde volta a trair ideias e sentimentos trazendo de volta a estranha sensação de um espaço por preencher.