sexta-feira, junho 17, 2011

Ardor

Chama... Chaga... Chacina... Talvez apenas vacina, intrépida, voraz, mortal... Um fluir de segregação artesanal que me torna, me foge, me íntegra; Inspira-se como ar expira-se como fumo e o transformar esquece dentro o uso da salvação... São como marcas de paixão, do amor devastado, perdido, retaliado... Graves, bêbedas, confusas; Dêem-lhes tempo para trabalhar... Precisam não só de ar mas também de alimento, de chumbo emotivo, tormento, de aprisionamento popular... O mar nunca será o mesmo, lento, altivo, brutal... Talvez quase que o seja mas num diferente momento as correntes que acorrento mudaram de barco opulento para semelhante vegetal... Ainda assim cruzar-se-ão, trocarão conhecimento, pois tanto lamento nas veias poderia nunca ser carregado como tal... Semblante opressivo pintado de falsa alegria deste lugar à ilusão que aconteceria um dia pois ainda que magia só apenas não valia desistir de nunca a ver.

Chamas... Chagas... Chacinas... Aparecem-me meninas, pintadas, vestidas, bordadas; Uma honesta conjectura que brilhante certamente faz-me ter eternamente esta mágoa de sal... Dilui-se, evapora e suscita, mas depois de a cama feita só aprendo que não deito nela a fêmea fatal... Graves, bêbedas, confusas; Caíram por terra um dia... Talvez tenham já caído, talvez nunca tenha existido para além do meu quintal... Surgiriam assim perguntas, tenras, ilusórias, juntas, mas que num’ alma de tango não precisam de ser soltas se a dança invoca o real... Culpemos então o rácio, lógico, sereno e crustáceo, altamente protegido, rasteiro, camuflado, escondido, mas que no final de contas apenas passa por mal.

Será o desejo a chama, que não queima mas inflama, incha, expande, acama e que mesmo sem sentir continua a existir como vicio ancestral?! São lamentos inequívocos, sonhos tomados em sonhos, ideias que invocam paixão...

Chama... Chaga... Chacina... Serás sempre um véu difuso que depois de tanto uso me deixa despido de tal; E no meio desta confusão, cresce a alma, cresce o tempo e tudo o vento transforma como se nada existisse afinal.

sexta-feira, junho 03, 2011

Pensamentos IV












Ainda que sós, todas as estrelas brilham.

segunda-feira, maio 30, 2011

Estima II

Começamos num dia qualquer Sem memória ou efusão Só nós mesmos Tentando ganhar o nosso espaço num circo de inspirações Os limites eram curtos As vontades eram só projectos A liberdade era liberdade e sem nos fazermos acamados Só não testávamos o que o tempo não deixava Nunca te quis aprender Eras só mais um Meio raquítico Passavas-me por baixo Dava-me ao conflito Gostava Da injustiça da luta Das barreiras a dobrar É um prazer buscar aberturas Os saquinhos de surpresas Doces e amargas cores Perspectivas de futuros Rumos e direcções que nos unem ou separam Gostava de me testar Porque não retesar as espirais Transpor as fronteiras impostas por gente que nada me entrega Sempre fui consciente o suficiente para escrever minhas regras Para planejar meus erros Para captar reacções Talvez Claro que fui idiota Mas antes isso que cretino Pensava Terá também sido esse o inicio da compreensão Felizmente não tenho grandes duvidas Haverá melhor maneira de te testar que levar-te ao limite Não haverá certamente Ao conhecer o pior serenamente concentro-me no bom Sem truques ou admirações Sem mal-entendidos ou surpresas Depois do pior Só pode melhorar Habitualmente sinto-me claro Enquanto ser que exibe as suas vontades e preocupações Os medos e caprichos Os pensamentos e as falhas de racionalidade Mas por algum motivo Existem ainda pequenos seres no universo Que tendo toda a facilidade para aprender a ler o ceu Saltaram o capítulo das estrelas Não que nutra por qualquer espécie de ser vivo Sentimentos que deterioram a minha condição Mas Existem leis que a natureza escreveu Fossos de ouro negro Marcas de luta guardadas no livro da nossa origem Diamantes quebrados Ataques lançados nos passos em falso Arvores milenares Rituais de acasalamento bizarros Seres iluminados Hierarquias ditatoriais Mundos feitos de circuitos entrelaçados por instintos irmãos As verdades não serão absolutas Mas as regras do jogo são Por muito que o homem avance Nunca perderemos os reflexos da traição

quarta-feira, maio 25, 2011

Frames III

O carácter intemporal do jardim e dos costumes que carregava faziam-me sentir parte de algo espontâneo. Aquela pequena representação da natureza há muito perdida nas grandes metrópoles tinha sobrevivido a todas as transformações duma sociedade que repetidas vezes se esquecera dos antigos hábitos. Ainda que o seu quotidiano fosse agora rodeado de indiferença, a sapiência de velhas gerações restava ainda nos seus encostos. A minha visita iria acabar depressa, mas os breves momentos de serenidade que me entregara ficariam para sempre marcados na película da minha vida.

terça-feira, maio 24, 2011

Frames II

O dia brilhava alimentado por um sol radiante e expressivo que me acamava naquele pedaço de terra. Era só mais um porto, mais gentes, mais um dia, mas como em outras ocasiões a preguiça que me ajudava a saborear o momento fazia-me também entender que em todas as ligações existe um vazio, um poço de nada que apenas transporta a energia que nos suporta. Entre Lisboa e Almada, duas células da humanidade que construímos como pudemos, continua a correr o Tejo. O tempo passa, as paisagens mudam, mas certos vazios estarão sempre presentes para nos lembrar que ainda que deles nos sirvamos, nada podemos fazer para os tornar nossos.

segunda-feira, maio 23, 2011

Frames I

O dia acabava; Pelo menos a parte do dia em que as obrigações me encobrem as vontades e em que o sol chama por mim à janela do escritório. Saio, respiro o ar amargo de Lisboa e ainda assim, vem-me à lembrança uma liberdade que os compromissos há muito cativaram. Entro no carro e rapidamente me entrego ao inferno das ruas em hora de ponta. Os carros atropelam-se, as pessoas fogem apressadas e sem mais para onde fugir, refugio-me nas imagens de uma cidade que tanto me entrega como me consome. Parado no vermelho olho o espelho... Não sou o único escravo, penso. Afinal este inferno não passa da soma dos infernos pessoais de cada um nesta cidade.

Encontros II

Era uma vez um jovem nascido em Portugal. Vivia numa semana em que os mistérios da compreensão entre as mãos que o criaram deixavam de ser obscuros e percebendo que a razão é um cantinho muito especial na mente de cada, o conjunto das experiências que antes de existir o moldaram faziam agora todo o sentido. Afinal, era só mais uma semana de desafios, de dúvidas, mudanças, aprendizagens e de olhos bem abertos a novas realidades. Tinha agora vinte cinco. A família ostentava-o (como sempre), e entre esse manto primitivo e confortável fazia por mostrar finalmente parte daquilo que o fazia segurar tal conjunto de crenças. Talvez nada tivesse sido em vão... Tudo era parte de um bloco, qual super estrutura finamente conectada por pequenos pontos em cruz; Era um quadro começado no inicio do tempo mas do qual só podia interpretar as mais recentes representações. “Talvez as escolhas não existam de todo...” Assim invalidava as desconfianças e identificadas as pontes por onde podiam trocar as espalhadas camadas desse puzzle multidimensional, tomavam-se agora partidos numa luta, que tendo deixado de ser luta mostrava apenas uma forma de agir perante novas aquisições.
Sem dúvida os devaneios de uma tela recentemente passada pareciam agora uma piada de mau gosto, um hino triunfal à falta de humanidade transportada por anos de comunicação deficiente e de orgulhos demasiado ignorantes para sequer serem motivos. As razões eram sabidas; a falta daquele pedacinho de compaixão que nos fizeram deixar no berço tinha-o feito misturar o existir e o ser.
Depois de uma taça de morangos brilhantemente cobertos por chantilly, via a situação criada naquele redondo de experiências como um pequeno mal-entendido; um piscar de olhos no momento certo, um ruído subatómico que se sente sem se notar, um lapso de uma vida passada ou a visão deturpada por substâncias xamânicas e na moldura seguinte, o suave doce creme tinha sido trocado por maionese... Faziam sentido os mal entendidos; “Afinal, quando nos deixamos confiar uma só taça de morangos com maionese pode foder todas as boas intenções”
Felizmente, os seus infinitos debates com cada uma das suas mentes não tinha apenas servido a esquizofrenia mas tinha-o também preparado para este tipo de deformações da realidade e assim, o nascimento de um novo ser suportado por ocultas nuvens de inquietação fazia-o sentir revigoradamente feliz.


Era uma vez um jovem nascido no Bangladesh. Vivia numa semana em que as flores que vendera pouco lhe davam de comer, mas pouco interessava; A força de uma natureza superior transmitia-lhe a energia que as suas raízes guardaram com os milénios e a capacidade de adaptação a qualquer tipo de moldura dava-lhe uma dose de realismo que envergonhava quem para ele olhava. Afinal, era só mais uma semana de desafios, de duvidas, de mudanças, aprendizagens e de olhos bem abertos a novas realidades. Tinha agora 20 anos. A família não sabia dele à meses (como sempre), e entre esse natural abandonar do berço, fazia por continuar a mostrar tal conjunto de convicções. De qualquer forma, tinha que as manter para sobreviver... Tudo fazia parte de um todo, de um destino que o trouxera ao mundo e que com pancadas desajeitadas o empurrara até aquele momento de clareza; Não interpretava nada, o passado nunca lhe tinha dado de comer e o futuro... bem, “Que interessa o futuro se não tiver pão e agua...” Assim, desconfiava do destino e identificadas as pontes por onde podia trocar acções por alimento dava passos de felino na esperança que as ténues passagens não se dissolvessem com o andar.
Olhava em volta, respirava milhões de vidas a cada instante; A vida parecia-lhe sempre uma piada de mau gosto, um hino triunfal à decadência da humanidade e ao desequilibro daquele micro-ponto do universo. Não lhe cabiam as razões, o espaço tinha sido ocupado por reflexos; Tinha deixado à muito de ser, somente existia
Depois de mais uma flor brilhantemente mascarada de esmola, via a situação ali realizada como um brutal abuso de consciência mas rapidamente a fome fazia-o focar-se na próxima agradecida violação das suas necessidades; um piscar de olhos no momento certo, um ruído subatómico que se sente sem se notar, um lapso de uma vida passada ou a visão deturpada por substancias xamânicas e na moldura seguinte, mais uma flor podia dar lugar a alimento... Só existiam mal entendidos; “Afinal, se confiar na justiça do dia-a-dia na melhor das hipóteses sou preso”
Felizmente, os seus infinitos e miseráveis exemplos de vida tinham-o preparado para este tipo de deformação da realidade e assim, a continuação de um existir suportado por ocultas nuvens de inquietação fazia-o sentir revigoradamente feliz.


Era uma vez uma noite. Era só mais uma como tantas outras, poluída, histericamente iluminada, pavorosamente povoada por invólucros que um dia contiveram algo mais que um numero.
Um era Outro existia; entre as realidades dos dois micro-cosmos uma barreira de luz deixou a verticalidade habitual e em jeito de repouso deixou-se adormecer entre os olhares destas criaturas. A fantasia desapareceu, as diferenças morreram sufocadas por lufadas de ar, os números que os prendiam somaram-se, as alianças que os separavam dividiram-se... os sorrisos fundiam-se como estrelas e perante tamanha troca de energia o tempo parou. As flores deixaram de existir, os hinos de ter razão; a verdade não era mais projecto, era o suporte físico que os unia.

terça-feira, maio 17, 2011

Jardins

Doce e fiel criação... Tudo começou bem, dentro dos padrões de miséria vivida naquele execrável jardim de degradação. A inocente meretriz dobrava os instintos e com a vontade amarrada a uma mesa moribunda, via injectado em si a continuidade de um mal que já não passava de desconfortável.
Ao terminar o sacrilégio, a vida deu de si e sem se aperceber do berço que a criava, multiplicou-se freneticamente, tentando assim alcançar a tão desejada liberdade.
Não demorou, até a miséria que girava em volta da concepção conceber mais do que era suposto, mais do que era permitido, e assim, as raízes da depravação soltaram-se no útero de um destino que ia nascendo já sem vida.
Eventualmente, dado a vigorosa forca que emanava de tão singela existência, de tão propositado golem, as barreiras foram superadas, e o ciclo completou o primeiro grande desafio.
Agora, uma consciência ainda prematura espreitava pela primeira vez todo um novo mundo de sensações; Tudo agora esperava, tudo fazia parte de um novo estar, de uma nova oportunidade para a liberdade promover as suas conquistas, e assim, continuar a propagação de uma obra que celebrava a harmonia do universo.

Porem, essa serena consciência tinha sido marcada, esculpida até então por inúmeras e severas estocadas de uma mão que há muito tinha escapado ao equilíbrio. Essas marcas, eram invisíveis, eram apenas pequenos pontos que ligavam uma estrutura, e que sem inibir o funcionamento da mesma, deixavam a convicção de tudo continuar a linha que o tempo moldou.
Esperava-o a liberdade (pensava), a oportunidade de se elevar ate um ponto onde só a nós nos é permitido chegar, mas invés disso, a crueza duma verdade coberta de lama tinha já executado todas as possibilidades.

Pedaços V

É todo um novo mundo de processos que me faz avançar 24/7

Depois do mau estar inicial, o corpo e a mente começam a acostumar-se aos novos desafios, os estranhos sentimentos reduzem a intensidade e as novas sensações emergem a cada dia.
As portas do subconsciente abriram-se ligeiramente, e ainda sem perceber muito bem como controlar todos os impulsos, vejo-me deparado com pedaços de arte, que com o simples envelhecer se transformaram em peças de um puzzle sobre o mais profundo dos meus estados.
Agora, enquanto obrigatoriamente repouso começo a conscientemente guiar o subconsciente na procura por soluções para os mais variados assuntos. É um novo e bizarro mundo, onde a realidade ainda que não existindo numa plataforma física, parece existir virtualmente, criando uma ponte entre as duas partes da minha existência.
São ainda só pequenas demonstrações de magia, mas, se os sentimentos estiverem certos, o controle sobre tal habilidade poderá vir a demonstrar-se assustadoramente interessante.

Tento controlar os cordelinhos que até agora me controlavam

segunda-feira, maio 16, 2011

Visões II












O metro parou
entraste confuso
incomodaste algo
pedias desculpa
os olhos bondosos
imagem suja
um olhar perdido
talvez certo
demasiado...

A cabeça girava
girava girava
carrossel ou dança
viajem era certamente
vias algo
vias mais que nós
sentias tudo

Estavas ali
vias-me de outro universo
sei que voavas
existias noutra dimensão
era demais
demasiado longe
perdi-te

Já não sabia
receei-te
protegi-me
não deixei de tentar
encontrar-te

Depois
saíste e eu fiquei

Pensamentos III

Existem semanas em que tenho a certeza que alguém anda a brincar com as minhas convicções...
Certamente é só o meu subconsciente a testar a minha preparação para o próximo nível, mas, não consigo deixar de ficar estupefacto com a falta de aleatoriedade que conseguimos impor ao mundo à nossa volta.

sexta-feira, maio 06, 2011

Visões












O metro arranca
sentada ao meu lado
saca um caderno
dedos negros carregam palavras
hippie style
mendigo beat
não pestaneja
não ouve em volta
a escrita começa

Outro vê para dentro
não esboça vida
carrega marcas pesadas
estão afastados
talvez se conheçam
o metro para
o outro abre a mala
os olhos fechados
o mover lento
o arrastar palpitante
saca um caderno

Ela volta
a escrita parou
o outro começa
o metro arranca
os olhos fechados
as palavras escrevem-se
lentas e cegas
talvez loucas
Será que se sabem?

Ela segue
ajeita as marcas
parece heroína
existe brio
segreda-lhe ao ouvido
toca-lhe no ombro
conhecem-se
compreendem-se
parecem o mesmo
são dois
o caderno abre-se
as palavras não são cegas
mas são-me mudas

O metro para
eu arranco
eles ficam

sexta-feira, abril 29, 2011

Tempo II

O tempo, nada entrega nem nada transforma
O tempo encripta o momento, confunde a verdade
O tempo cria espaço para a fantasia

A realidade tem uma só verdade
A verdade não depende do tempo
A verdade é factual

O tempo é uma ilusão do nosso cérebro
O movimento, transforma
O tempo, apenas permite ao movimento rever a trajectória

quarta-feira, abril 13, 2011

Pensamentos II







Todo o betão será um dia areia.

quinta-feira, abril 07, 2011

Canções

Não sinto nada
Atormento tudo
Perco-me entre sons transactos
Revejo bandas sonoras perdidas no fundo de um coração

Voz equivocada, ausente, quase extinta
Talvez soes agora numa nova sinfonia
Num novo arranjo de momentos e saudades
Quiçá movas agora a vida com outras canções
Ou porventura, as melodias se tenham perdido com o perder da inocência

Ardes-me de histórias
Revives-me de emoções
Arrepias-me a memória de uma vida cansada, gasta, quieta
Trazes-me Inverno à inflamada Primavera

Tremo sem frio
Não tento resistir
Os revivalismos vãos perseguem-me como se a minha vida os fizesse respirar
Assombram-me o espírito como se o meu peito fosse o seu último reduto
Não tento esconder

Gosto de te rever
De te sentir dentro de mim
De suar o abanar dos músculos causado pela mera fantasia do passado
E acima das nuvens de intrigas
Saborear os restos de uma convicção que me viu nascer

A tua voz nunca será perdida enquanto eu caminhar nas planícies da imaginação
O teu timbre vai perdurar até a mente me doer
O teu mel… Ah, inocente mel que me alimentava as raízes
Mel que me prendia a um solo demasiado estéril, a um vazio de variedade que só me permitia crescer num sentido
Mel que transformava necessidades, que corrompia motivações…

Era esse mel que a tua voz cantava
Era essa voz que me aninhava os sentidos

Perco-me na saudade da tua voz esculpida por brisas
Escrevo entre os gritos de uma memória que já só recorda pequenos refrães
Gosto de te rever…

É impensável este carregar de amores que não existem
Este apaixonar por sensações que aprendi a recriar
É idiota perder o dia de hoje admirando momentos ultrapassados
A cansar o pensamento com sentimentos aos quais eu pergunto e respondo

É idiota; Mas não temo!

Quem nunca amou um momento?
Quem nunca escreveu na alma um coração e uma data, como se numa qualquer árvore talhasse o seu amor a outrem?

Somos todos idiotas do coração
Apaixonados inconsequentes que fitados por um destino que apenas entrega charadas
Nos deixamos atraiçoar pela nossa própria vaidade

O amor é amor
Não duvido disso
Mas é também ele vanglória, exploração e preguiça
É ódio, traição e abandono

O amor é como substância
Podemos escolher pegar-lhe, transforma-lo e viciarmo-nos nele
Podemos usa-lo como quisermos
Para curar males, para ver mais alem ou só para fazer passar o tempo

O amor é amor
Não duvido disso
Mas as inibições e revelações que me traz ao organismo
Levam-me a querer sempre guardar algo
Um beijo, um olhar ou uma canção
Pois, não vá o mal aparecer de novo e sem memoria reactiva que me faça travar a cavalgada alucinante a que ele me sujeita
Caia eu outra vez nas redes de uma heresia
Que sem me fazer sentir mal, também não me faz sentir bem

quarta-feira, abril 06, 2011

Revoltas I

A cada dia que passa, novas verdades abrem-me portas a uma revolta que começa a transformar-se em necessidade

Sinto que passei toda a vida a jogar com dados viciados, e sem perceber o porquê dos infiéis resultados, atribui-a a culpa à vida em si. Depois, aos poucos, tentei perceber o porquê de tanto desequilíbrio à minha volta, e acabei por entender que já nenhum de nós lança os dados, os dados seguem já um caminho predefinido por um sistema de que também fazemos parte.
Temos as mãos amarradas por redes demasiado complexas para decifrar individualmente, enquanto os nossos cérebros foram já formatados por necessidades e intensivos esquemas globais.
Ofereceram-nos mundos de estímulos, de cores e sabores, de pura fartura e deleite, e em troca, levaram-nos a identidade de uma espécie, a liberdade da vida e as inesperadas resoluções do destino.
Tiraram-nos tudo em nome de um deus que não existe mas que persiste, em função de um meio assente em princípios errados e que nunca funcionou.
Os crimes são infindáveis, as violações de direitos básicos ultrapassam a nossa capacidade de absorver informação; Os interesses são agora absolutos. Tudo serve para alimentar este sistema; Já não existem regras, bom senso ou sequer aquela leve réstia de compaixão que nos faz distinguir o certo do errado.
A economia tornou-se orgânica e como uma árvore que se consegue alimentar de tudo o que a rodeia, transformou-se num monstro com infinitas ramificações, que em pouco tempo, chegou a todos os cantos do planeta alimentando-se de tudo que o existe.
Fomos amarrados a necessidades que não nos pertencem, a interesses que nunca foram nossos, e sem aparente alternativa em mente, deixamos-nos enterrar cada dia mais fundo numa conspiração que há muito perdeu o controlo.
Infelizmente, foi preciso bater no fundo para começarmos a acordar, para a inteligência de uma família de seres se voltar a reunir num propósito maior. Ainda assim, somos poucos, apenas meia dúzia de almas constrangidas quando comparado com os milhões que continuam a sufocar sem perceber porquê.
É verdade que nada voltará a ser como antes; É um facto que os poderes instituídos não cairão facilmente. Contudo, é também verdade que se nada fizermos, o triste (mas ainda habitável) mundo que conhecemos hoje, em poucos anos se transformará num vazio demasiado difícil de suportar.

É tempo de agir, de nos perdoarmos os erros que permitimos, de nos reeducarmos enquanto espécie.
É tempo de nos unir-mos, de repensarmos ideias, de olhar para alem do nosso umbigo.
É tempo de readquirir liberdade, de forcar direitos que nos roubaram sem perguntar.
É AGORA O TEMPO; É ESTE O MOMENTO EM QUE O FUTURO SE DECIDE!

Está na altura de trabalharmos todos pelo que de mais importante temos;
AS NOSSAS VIDAS E AS DAS GERAÇÕES FUTURAS

terça-feira, abril 05, 2011

Anjo III

No topo de um palácio improvisado, cultivávamos agora o fascínio pelas silhuetas que o semblante negro da noite carregava
A imensidão de luzes, ofuscadas pontualmente pela névoa que o mar respira, traziam à memória dias que não me lembro, mas sinto
A orgia de sentimentos continuava no auge, mas juntava-se agora à mistura uma onda de nervosismo impetuoso que me trazia a voar baixinho
Os sabores trocavam-se, e aos poucos, as palavras ganhavam lugar aos gestos; Os gestos eram agora espasmos imprimidos por um instinto que recusava recuar
Eram agora os sons que confortavam, os significados que ditavam as regras

Como sempre, Facilmente me seguraste
Mais uma vez, Levaste-me a procurar

No fim, e ainda que o mau-estar alheio não te perdoasse, ficamos no limbo de uma compreensão desconhecida, e sem mais, eclipsamos-nos num ciclo de fantasias por realizar

Anjo II

As ondas tocavam baixinho; A lua mantinha-se alegre enquanto brincava às marés
A recente confusão de um passado ainda fresco resolvia-se no horizonte iluminado
O som chegava-nos e refletido nas silhuetas, caia no calmo lago de areia branca que nos suportava
Ficávamos... O tempo era imperfeito, inoportuno e incomodo. O momento era verdadeiro, doce e gentil
Ficamos assim, estendidos, descompostos de preocupações, avidos por elevar vontades, por conquistar perfeições
O afecto envolvia o ambiente; O ambiente envolvia-nos, e embalados pela brisa que dançava ao ritmo das ondas, dançávamos nós também
Foram valsas com eixos trocados, sem regras, sem palavras
Só corpos que se guiavam pela natureza, enquanto as almas faziam por se fundir naquele micro-cosmos de emoções

Anjo I

A visão agarrava; O jogo de luzes enganava o local
A sedução arrastada pelos dias, intensificada por sons e dramaturgos embriagados, fazia-me procurar
Levava-nos por singelas sensações, momentos ligeiros que sem quebrar a harmonia do tempo carregavam de medo e desejo o meu coração
Dizia que sim; Agia que não; Soltava o acontecer...
Enrolava toques e suspirava nervosismos; Caia em velhos novelos; Encontrava onde repousar
Tornou-se livre; quase natural. Tratas-te de me cuidar
Repousei nos teus braços delicados e quase sem respirar, deixei tudo ir contigo, com as luzes, com a lua e as estrelas;
O sol nasceu, e com ele, nasceu também uma fada
As fadas transportam contos e magia por entre eras, atravessam planícies de duvidas, entregando esperança
Nunca acreditei em fadas; Nunca acreditei em contos
Felizmente, acreditei em ti

segunda-feira, abril 04, 2011

Transgressões

O peso que as imagens têm sobre as sensações, parecem tornar menos humano aquilo que a natureza me preparou perfeitamente para exercer.
Sempre o mesmo dilema… O decidir das vontades, o acompanhar do conforto, o aparecer do instinto; É como se a minha consciência conseguisse dilatar-se e contrair-se em simultâneo, e seguindo dois caminhos opostos, permitisse por momentos a existência de duas almas distintas.
Depois, é um sentir desconfortável, um quebrar de identidades, que no meio do conforto me desconforta a alma confortada com o calor das relações.
Será este desconforto reflexo das minhas escolhas? dos meus milenares propósitos? de algo maior que se revela no momento da verdade? Ou será apenas uma condição estereotipada, assimilada por mim como um capricho que me direciona as crenças?
Não sei ao certo, mas, provavelmente é só uma forma de testar situações, tentando assim não me perder.