segunda-feira, maio 16, 2011

Pensamentos III

Existem semanas em que tenho a certeza que alguém anda a brincar com as minhas convicções...
Certamente é só o meu subconsciente a testar a minha preparação para o próximo nível, mas, não consigo deixar de ficar estupefacto com a falta de aleatoriedade que conseguimos impor ao mundo à nossa volta.

sexta-feira, maio 06, 2011

Visões












O metro arranca
sentada ao meu lado
saca um caderno
dedos negros carregam palavras
hippie style
mendigo beat
não pestaneja
não ouve em volta
a escrita começa

Outro vê para dentro
não esboça vida
carrega marcas pesadas
estão afastados
talvez se conheçam
o metro para
o outro abre a mala
os olhos fechados
o mover lento
o arrastar palpitante
saca um caderno

Ela volta
a escrita parou
o outro começa
o metro arranca
os olhos fechados
as palavras escrevem-se
lentas e cegas
talvez loucas
Será que se sabem?

Ela segue
ajeita as marcas
parece heroína
existe brio
segreda-lhe ao ouvido
toca-lhe no ombro
conhecem-se
compreendem-se
parecem o mesmo
são dois
o caderno abre-se
as palavras não são cegas
mas são-me mudas

O metro para
eu arranco
eles ficam

sexta-feira, abril 29, 2011

Tempo II

O tempo, nada entrega nem nada transforma
O tempo encripta o momento, confunde a verdade
O tempo cria espaço para a fantasia

A realidade tem uma só verdade
A verdade não depende do tempo
A verdade é factual

O tempo é uma ilusão do nosso cérebro
O movimento, transforma
O tempo, apenas permite ao movimento rever a trajectória

quarta-feira, abril 13, 2011

Pensamentos II







Todo o betão será um dia areia.

quinta-feira, abril 07, 2011

Canções

Não sinto nada
Atormento tudo
Perco-me entre sons transactos
Revejo bandas sonoras perdidas no fundo de um coração

Voz equivocada, ausente, quase extinta
Talvez soes agora numa nova sinfonia
Num novo arranjo de momentos e saudades
Quiçá movas agora a vida com outras canções
Ou porventura, as melodias se tenham perdido com o perder da inocência

Ardes-me de histórias
Revives-me de emoções
Arrepias-me a memória de uma vida cansada, gasta, quieta
Trazes-me Inverno à inflamada Primavera

Tremo sem frio
Não tento resistir
Os revivalismos vãos perseguem-me como se a minha vida os fizesse respirar
Assombram-me o espírito como se o meu peito fosse o seu último reduto
Não tento esconder

Gosto de te rever
De te sentir dentro de mim
De suar o abanar dos músculos causado pela mera fantasia do passado
E acima das nuvens de intrigas
Saborear os restos de uma convicção que me viu nascer

A tua voz nunca será perdida enquanto eu caminhar nas planícies da imaginação
O teu timbre vai perdurar até a mente me doer
O teu mel… Ah, inocente mel que me alimentava as raízes
Mel que me prendia a um solo demasiado estéril, a um vazio de variedade que só me permitia crescer num sentido
Mel que transformava necessidades, que corrompia motivações…

Era esse mel que a tua voz cantava
Era essa voz que me aninhava os sentidos

Perco-me na saudade da tua voz esculpida por brisas
Escrevo entre os gritos de uma memória que já só recorda pequenos refrães
Gosto de te rever…

É impensável este carregar de amores que não existem
Este apaixonar por sensações que aprendi a recriar
É idiota perder o dia de hoje admirando momentos ultrapassados
A cansar o pensamento com sentimentos aos quais eu pergunto e respondo

É idiota; Mas não temo!

Quem nunca amou um momento?
Quem nunca escreveu na alma um coração e uma data, como se numa qualquer árvore talhasse o seu amor a outrem?

Somos todos idiotas do coração
Apaixonados inconsequentes que fitados por um destino que apenas entrega charadas
Nos deixamos atraiçoar pela nossa própria vaidade

O amor é amor
Não duvido disso
Mas é também ele vanglória, exploração e preguiça
É ódio, traição e abandono

O amor é como substância
Podemos escolher pegar-lhe, transforma-lo e viciarmo-nos nele
Podemos usa-lo como quisermos
Para curar males, para ver mais alem ou só para fazer passar o tempo

O amor é amor
Não duvido disso
Mas as inibições e revelações que me traz ao organismo
Levam-me a querer sempre guardar algo
Um beijo, um olhar ou uma canção
Pois, não vá o mal aparecer de novo e sem memoria reactiva que me faça travar a cavalgada alucinante a que ele me sujeita
Caia eu outra vez nas redes de uma heresia
Que sem me fazer sentir mal, também não me faz sentir bem

quarta-feira, abril 06, 2011

Revoltas I

A cada dia que passa, novas verdades abrem-me portas a uma revolta que começa a transformar-se em necessidade

Sinto que passei toda a vida a jogar com dados viciados, e sem perceber o porquê dos infiéis resultados, atribui-a a culpa à vida em si. Depois, aos poucos, tentei perceber o porquê de tanto desequilíbrio à minha volta, e acabei por entender que já nenhum de nós lança os dados, os dados seguem já um caminho predefinido por um sistema de que também fazemos parte.
Temos as mãos amarradas por redes demasiado complexas para decifrar individualmente, enquanto os nossos cérebros foram já formatados por necessidades e intensivos esquemas globais.
Ofereceram-nos mundos de estímulos, de cores e sabores, de pura fartura e deleite, e em troca, levaram-nos a identidade de uma espécie, a liberdade da vida e as inesperadas resoluções do destino.
Tiraram-nos tudo em nome de um deus que não existe mas que persiste, em função de um meio assente em princípios errados e que nunca funcionou.
Os crimes são infindáveis, as violações de direitos básicos ultrapassam a nossa capacidade de absorver informação; Os interesses são agora absolutos. Tudo serve para alimentar este sistema; Já não existem regras, bom senso ou sequer aquela leve réstia de compaixão que nos faz distinguir o certo do errado.
A economia tornou-se orgânica e como uma árvore que se consegue alimentar de tudo o que a rodeia, transformou-se num monstro com infinitas ramificações, que em pouco tempo, chegou a todos os cantos do planeta alimentando-se de tudo que o existe.
Fomos amarrados a necessidades que não nos pertencem, a interesses que nunca foram nossos, e sem aparente alternativa em mente, deixamos-nos enterrar cada dia mais fundo numa conspiração que há muito perdeu o controlo.
Infelizmente, foi preciso bater no fundo para começarmos a acordar, para a inteligência de uma família de seres se voltar a reunir num propósito maior. Ainda assim, somos poucos, apenas meia dúzia de almas constrangidas quando comparado com os milhões que continuam a sufocar sem perceber porquê.
É verdade que nada voltará a ser como antes; É um facto que os poderes instituídos não cairão facilmente. Contudo, é também verdade que se nada fizermos, o triste (mas ainda habitável) mundo que conhecemos hoje, em poucos anos se transformará num vazio demasiado difícil de suportar.

É tempo de agir, de nos perdoarmos os erros que permitimos, de nos reeducarmos enquanto espécie.
É tempo de nos unir-mos, de repensarmos ideias, de olhar para alem do nosso umbigo.
É tempo de readquirir liberdade, de forcar direitos que nos roubaram sem perguntar.
É AGORA O TEMPO; É ESTE O MOMENTO EM QUE O FUTURO SE DECIDE!

Está na altura de trabalharmos todos pelo que de mais importante temos;
AS NOSSAS VIDAS E AS DAS GERAÇÕES FUTURAS

terça-feira, abril 05, 2011

Anjo III

No topo de um palácio improvisado, cultivávamos agora o fascínio pelas silhuetas que o semblante negro da noite carregava
A imensidão de luzes, ofuscadas pontualmente pela névoa que o mar respira, traziam à memória dias que não me lembro, mas sinto
A orgia de sentimentos continuava no auge, mas juntava-se agora à mistura uma onda de nervosismo impetuoso que me trazia a voar baixinho
Os sabores trocavam-se, e aos poucos, as palavras ganhavam lugar aos gestos; Os gestos eram agora espasmos imprimidos por um instinto que recusava recuar
Eram agora os sons que confortavam, os significados que ditavam as regras

Como sempre, Facilmente me seguraste
Mais uma vez, Levaste-me a procurar

No fim, e ainda que o mau-estar alheio não te perdoasse, ficamos no limbo de uma compreensão desconhecida, e sem mais, eclipsamos-nos num ciclo de fantasias por realizar

Anjo II

As ondas tocavam baixinho; A lua mantinha-se alegre enquanto brincava às marés
A recente confusão de um passado ainda fresco resolvia-se no horizonte iluminado
O som chegava-nos e refletido nas silhuetas, caia no calmo lago de areia branca que nos suportava
Ficávamos... O tempo era imperfeito, inoportuno e incomodo. O momento era verdadeiro, doce e gentil
Ficamos assim, estendidos, descompostos de preocupações, avidos por elevar vontades, por conquistar perfeições
O afecto envolvia o ambiente; O ambiente envolvia-nos, e embalados pela brisa que dançava ao ritmo das ondas, dançávamos nós também
Foram valsas com eixos trocados, sem regras, sem palavras
Só corpos que se guiavam pela natureza, enquanto as almas faziam por se fundir naquele micro-cosmos de emoções

Anjo I

A visão agarrava; O jogo de luzes enganava o local
A sedução arrastada pelos dias, intensificada por sons e dramaturgos embriagados, fazia-me procurar
Levava-nos por singelas sensações, momentos ligeiros que sem quebrar a harmonia do tempo carregavam de medo e desejo o meu coração
Dizia que sim; Agia que não; Soltava o acontecer...
Enrolava toques e suspirava nervosismos; Caia em velhos novelos; Encontrava onde repousar
Tornou-se livre; quase natural. Tratas-te de me cuidar
Repousei nos teus braços delicados e quase sem respirar, deixei tudo ir contigo, com as luzes, com a lua e as estrelas;
O sol nasceu, e com ele, nasceu também uma fada
As fadas transportam contos e magia por entre eras, atravessam planícies de duvidas, entregando esperança
Nunca acreditei em fadas; Nunca acreditei em contos
Felizmente, acreditei em ti

segunda-feira, abril 04, 2011

Transgressões

O peso que as imagens têm sobre as sensações, parecem tornar menos humano aquilo que a natureza me preparou perfeitamente para exercer.
Sempre o mesmo dilema… O decidir das vontades, o acompanhar do conforto, o aparecer do instinto; É como se a minha consciência conseguisse dilatar-se e contrair-se em simultâneo, e seguindo dois caminhos opostos, permitisse por momentos a existência de duas almas distintas.
Depois, é um sentir desconfortável, um quebrar de identidades, que no meio do conforto me desconforta a alma confortada com o calor das relações.
Será este desconforto reflexo das minhas escolhas? dos meus milenares propósitos? de algo maior que se revela no momento da verdade? Ou será apenas uma condição estereotipada, assimilada por mim como um capricho que me direciona as crenças?
Não sei ao certo, mas, provavelmente é só uma forma de testar situações, tentando assim não me perder.

terça-feira, março 22, 2011

Vicissitudes

O que estás a sentir é iluminação prematura…

Os meus órgãos contorciam-se perante a áspera náusea que o cheiro dos corpos dilacerados libertava sobre mim. Há minha volta tudo rodopiava numa dança canibal onde seres transfigurados ostentavam coroas adornadas com mentes humanas. Os cérebros tinham sido cuidadosamente dissecados e num estado de absoluta inércia, cravados com as marcas dos novos senhores da terra. Era um desfile de bestas, orgulhosamente passeando por entre o imundo esgoto em que a Terra Livre do Sapo Alegre se tinha transformado. As florestas por onde antes sapos alegres saltavam, estavam agora imersas em estéreis poças de sangue e lixo em decomposição. O majestoso oceano que outrora banhara as mais belas praias de areia branca, era agora uma plataforma flutuante de resíduos onde restos de vida se abrigavam da carnificina vivida em terra. Assim, o momento chegara. Cortei então a garganta às bestas e sozinho contemplei a grandiosidade do objectivo que por tanto me guiara. Tudo fora vantajosamente moldado e pelas minhas mãos passava agora a liberdade de usufruir de tão pensado pedaço de terra.
Foi nesse momento que percebi que todo o poder é absurdo quando nada resta para o exercer. Por fim, provei da minha própria carne e desiludido com o sabor, trespassei meu coração numa tentativa de acordar.

Só depois de perderes tudo, estarás preparado para fazer qualquer coisa

segunda-feira, março 21, 2011

Nós VI

O que é isto a que chamo de consciência?

Bem, primeiro vamos recuar 15 anos na minha vida…

Usualmente, ao pensar na palavra consciência ocorria-me pensar automaticamente na nossa espécie, Homo Sapiens. Nós, seres humanos, os derradeiros detentores da consciência e conhecimento, a raça que quebrou todos os limites e fronteiras, aqueles que, tendo absoluta noção do individuo e do ambiente que o rodeia, conseguiram moldar todo um planeta para satisfazer as suas necessidades.
Foi o que me ensinaram na escola, e não vendo mentira em nenhuma destas palavras (apenas orgulho por fazer parte de tão brilhante irmandade), acho que me guiei por elas durante os anos que se seguiram.

Depois, o tempo foi passando, e a curiosidade da adolescência aliada a uma forma saudável de pensar, apenas pelo prazer de pensar, fez-me começar a acreditar que a consciência não era um assunto assim tão linear. Não me lembro de onde partiu a ideia, mas de alguma forma, na minha mente, não via grande diferença entre a minha consciência e a de uma comum pedra.

Pois… Quando assim exposta, a ideia tinha algo de idiota, e sem grandes ferramentas que me permitissem extrapolar de uma forma sucinta e assertiva as ideias que me assaltavam, nunca fui muito fundo no que toca a discutir este assunto com outras pessoas.
De qualquer forma, lembro-me de algumas bases… Lembro-me de ver o mundo como uma enorme “inteligência”, no sentido em que, toda a matéria se organizava de alguma forma, e no fim, tudo encaixava e fazia um tremendo sentido. Não podia ser só acaso… Ou, ainda que fosse, era um acaso que de alguma forma tendia para a organização… Bem, continuando, lembro-me de com o passar dos dias ver cada vez mais padrões de inteligência em tudo à minha volta; Nas plantas, nos animais, nos simples objectos do dia-a-dia, e assim, percebi que a enorme “inteligência” em que pensava, não passava de um conjunto de infinitas pequenas inteligências, que no seu todo formavam o incrível cenário que me rodeava. (Muito mais tarde, a Teoria do Caos em conjunto com a Geometria Fractal, fizeram-me entender que no fundo, eu até era um puto inteligente, mas, continuemos com a minha ingénua ignorância…)

Partindo deste principio, e revendo na minha espécie aquilo que a consciência nos proporcionava, cheguei à tal comparação entre os humanos e a pedra.
Para mim, a nossa consciência não passava de um mecanismo que nos permitia ter presente, aquilo que necessitávamos para sobreviver no nosso meio ambiente. Quanto à pedra o mecanismo era exactamente o mesmo, não obstante a ausência de vida na pedra tornar a sua consciência muito menos complexa, mas a função era igual. Se reduzíssemos a pedra e o ser humano até à menor partícula, o tipo de inteligência que íamos encontrar não era em nada diferente… Portanto, fiquei durante mais uns anos com esta ideia, mas sem nunca me envolver muito ao pensar nela.

Muitos anos passaram desta vez e as antigas ideias ficaram guardadas no fundo do baú.
Começava agora uma busca, pelo que eu chamava de uma “consciência o-mais-absoluta-possível”, e devagarinho, encontrava-me num ponto, em que tentava perceber porque raio a nossa consciência enquanto espécie, é tão influenciável por estímulos que pouco têm a ver com a nossa sobrevivência.

Tinha deixado as minhas antigas ideias esquecidas, mas ainda assim, o meu subconsciente começava agora a dilatar a ideia da pedra para algo diferente. De certa forma, não tinha aprendido nada em todos estes anos que me levasse a desacreditar a minha crença de criança, mas por outro lado, via agora na pedra uma forma de existência em tudo mais perfeita que a nossa. Intrigava-me o facto de que a consciência que ingenuamente eu tinha apelidado de menos complexa, funcionasse melhor no contexto da adaptação ao meio ambiente do que a nossa superior consciência, que nos permitiu tantos magníficos feitos ao longo da história.
Ainda assim, a pedra não era o melhor exemplo, pois a diferença da vida desempenhava aqui um papel um tanto ou quanto revelador. Alem disso, não só a pedra tinha uma existência demasiado perfeita, como tanta perfeição junta deixava de ter interesse ao fim de uma hora a olhar para ela. Assim, virei-me para algo mais próximo e comecei a tentar perceber a diferença entre nós e o resto dos seres vivos.

Esquecidas as pedras, os organismos vivos eram todo um novo mundo de experiências, um tanto ao quanto surreais, que facilmente me faziam viajar entre pensamentos.
O processo a que chamamos vida tinha uma serie de características interessantes, mas, achava peculiar piada à parte da reprodução, que, aliada à enorme capacidade de adaptação dos seres vivos, dava origem a um quase infinito leque de formas de vida. Mais piada, tinha pensar que todas elas partiram da mesma forma de vida inicial… Mais uma vez assaltava-me a ideia de que do simples nascia o caos, mas que, de alguma forma ele sempre tendia para a organização. Era um paralelo bastante forte com o tipo de inteligência que vira quase 15 anos antes na consciência, mas, onde estariam a consciência e a evolução ligadas? (Acabei por perceber depois, mas tratamos disso mais tarde)

Digamos que deixei essa pergunta para trás durante uns dias, e foquei-me em voltar à discussão da consciência, tendo agora, muito mais do que uma pedra para comparar com a nossa evoluída espécie. Tinha agora um leque infindável de formas de vida, que com milhares de milhões de anos para se desenvolver e adaptar plenamente, me dariam certamente uma boa comparação em relação à nossa ainda muito recente espécie.

Foi ai, ao começar a analisar os pequenos detalhes que fazem dos seres vivos, Seres Vivos, que comecei mais uma vez a pensar que não havia entre todos nós grande diferença naquilo a que eu chamava de consciência. Das plantas aos animais, das bactérias aos fungos, em todos eles encontrava o mesmo tipo de comportamentos muito básicos e altamente funcionais, que levavam todo o organismo a render as suas necessidades de uma forma em tudo idêntica à nossa.
Todos precisávamos de energia, e todos tínhamos um metabolismo para nos manter vivos. Todos nos tínhamos adaptado das mais extraordinárias formas, na busca por essa energia. Todos reagíamos a estímulos e todos nos reproduzíamos de forma a manter-mos a espécie para alem do individuo. Por fim, toda a vida quando reduzida ao mínimo, era baseada na célula.
Com todas estas semelhanças, por muito que tivesse lido em contrário, achava agora que muito mais que a pedra, todos os seres vivos tinham exactamente o mesmo tipo de consciência. Nem mais, nem menos, mas exactamente o mesmo.

Via em quase todos eles o mesmo tipo de “sentidos”, e em muitos, não conseguia encontrar qualquer diferença. Conseguia encontrar na natureza todo o tipo de animais com sentido de experiência, de conhecimento sobre si e sobre o que os rodeia, um total estado de sensibilização para todo o tipo de estímulos, e ate demonstrações muito concretas de sentimentos.
Com tudo isto, os meus pensamentos multiplicavam-se, e começava agora a ter uma ideia ligeiramente diferente. Ok, na base toda a consciência era a mesma, mas, de alguma forma, nós enquanto seres humanos, mostrávamos tipos de comportamento que ainda que baseados nas mesmas premissas, tinham divergido para algo que em lugar algum na natureza podemos encontrar.

De alguma forma, parece que durante o nosso processo de desenvolvimento de consciência nos escapou qualquer coisa, pois, de todo o ser vivo que habita este planeta, somos o único que não funciona devido a causas internas.
Em algum ponto da nossa história, passamos de animais extremamente adaptáveis e inteligentes a animais semi-adaptáveis e com uma inteligência muito limitada. Limitámos tanto a nossa inteligência, talvez devido à nossa extrema adaptabilidade, que nos últimos milhares de anos esquecemos completamente aquilo que é instintivo para qualquer outro ser vivo; Esquecemos que fazemos parte de um todo, e que o todo só funciona, se tudo funcionar como é suposto.

Como é possível, que a maior parte de nós já não tenha uma real noção de quais são as nossas necessidades para sobreviver. Para muita gente, as necessidades básicas são um carro, um telemóvel e uma ligação à internet.
A reprodução, tornou-se uma forma engraçada e por vezes chata de colmatar um instinto que já se vê a desaparecer nos meios urbanos. Conseguimos ver milhões de mulheres que sentem repulsa pelo acto de dar a luz, outras tantas que conscientemente vêem uma carreira como um meio mais importante para a absoluta resolução das suas vidas e à ainda o grupo das que diz que ficar grávida vai estragar as suas brilhantes aparências.
Até o nosso metabolismo parecemos querer alterar nos dias que correm. Hoje em dia, come-se porque sabe bem e já ninguém quer saber se realmente está a comer o melhor para a sua própria saúde. É muito melhor comer um saboroso BigMac que é quase tão saudável como beber lixivia ao pequeno-almoço, do que realmente comer algo que contribua para o nosso bem-estar, que em última instancia, ainda dá jeito.
Bem, a sustentabilidade da espécie nem vou comentar, está à vista de todos o que a nossa grande consciência fez pela nossa continuidade e a do meio ambiente.

Assim, vemos hoje uma espécie humana que na sua maioria, já nem é adaptável, nem inteligente; São simplesmente escravos de um longo ciclo de desconsciencialização guiado pela economia, que no ultimo século tomou proporções cataclísmicas.
Assim, retiro tudo o que disse aquando dos meus infantis pensamentos sobre a igualdade de consciência entre todos os seres vivos. Sem sombra de dúvida, somos o ser vivo menos consciente deste planeta. Mais, dado que tentamos tão convictamente quebrar todas as regras que fazem de nós seres vivos, diria que já nem a esse título devíamos ter direito. Talvez lixo orgânico encaixa-se melhor na nossa definição.

Mas, quem quer saber disso, se podemos comer um Big Tasty, enquanto as leoas ainda tem que correr por comida…

quarta-feira, março 16, 2011

Espelhos

Luto por aceitar os meus génios

Depois de uma experiencia por muito adiada, as linhas que me guiavam, foram subitamente assaltadas por uma desenfreada procura, por pedaços remotos de consciência que sempre me levantaram alguns problemas.

Digamos, que a minha natureza ligeiramente psicótica, sempre foi conciliada, na base da abstracção, com a vida que me rodeava, mas, devido aos receosos incómodos que me fazia causar, nunca a decidi encarar nos olhos, e, de uma forma racional e emocionalmente construtiva, perceber o porquê de tantas imbecis sugestões. Agora, devido à capaz habilidade de vasculhar e conectar pensamentos, vejo-me deparado com a raiz do problema de uma forma muito clara e concreta.

Sinto os seus efeitos negativos sugarem-me aos poucos, para um mundo subterrâneo de fantasmas e conspirações, e claramente, entendo que a maneira como esta espiral é dirigida, em tudo se assemelha, aos meus anteriores passos, rumo a uma consciência superior. Sem dúvida, o exaustante processo de procura que me faz elevar, é ele mesmo, o responsável por me fazer cair em desagrados mentais.
No fundo, é apenas um processo, que, dividido em dois caminhos muito distintos, atinge pontos opostos, no que toca à minha felicidade e bem-estar.

Assim, tento finalmente entender os meus demóniozinhos, e abrindo-lhes as portas que sempre me esforcei por manter fechadas, compreender qual o objectivo deste processo biológico que nada de realizável trás à minha vida.

No fim, concluo que só educando este outro eu, que sempre foi deixado esquecido no fundo do baú, posso tornar-me um pedaço coerente de inteligência.

Luto por educar os meus génios

terça-feira, março 15, 2011

Desfiles

Depois de um fim-de-semana meio surreal, onde a minha concentração esteve dispersa entre várias galáxias diferentes, foi com enorme espanto que recebi notícias sobre a manifestação do último sábado.
Confesso, que estando longe e conhecendo a realidade portuguesa como até aqui se me apresentou, não esperava (de todo), esta massiva adesão, em que os números fizeram impressionar um pouco por toda a Europa.

Bem, pela adesão a esta iniciativa, fiquei sem dúvida feliz! Fiquei feliz por ver os primeiros passos para a requalificação dos nossos cidadãos, enquanto agentes activos nas tomadas de decisão de um sistema, que há muito não funciona no seu sentido estrito.
Por outro lado, e como não podia deixar de ser (dado o nível de consciência politico-economico-social que o povo português não desenvolveu nas ultimas décadas), a manifestação pareceu-se mais com um desfile de carnaval do que realmente com algo ligado à luta pelos direitos dos Portugueses. Posso estar enganado, mas pareceu-me que a grande maioria dos manifestantes, saiu à rua por motivos puramente superficiais, e que muito poucos tinham consciência do que realmente significa uma manifestação.
Foi no mínimo caricato, ver numa manifestação dita pacifica, laica e apartidária, grupos de anarquistas, neo-nazis, militantes da JSD, deputados do PCP ao CDS e outros tantos grupos, representando valores, que pouco tinham a ver com o intuito da mesma.

Ainda assim, o impacto existiu, e aparentemente chegou longe. Habituados a manifestações, quase diariamente, e, realmente adaptados a um estilo de vida, em que a luta pelos seus direitos parece ser mandatário, foram vários os gregos, que, sem eu tocar no assunto, me fizeram chegar o seu agrado por ver tamanha movimentação, ainda que, todos eles tenham ficado de alguma forma revoltados, pela falta de consciência sobre os valores que movimentaram tanta gente. É curioso perceber, que fomos tão suaves e superficiais na maneira como nos manifestamos, que qualquer grego que tenha visto as imagens, percebeu em 10 segundos que ninguém sabia muito bem o que estava ali a fazer.

No fim, ainda que bastante mal definida, digamos que vejo a manifestação como um sucesso, dado a quantidade de informação que pôs a circular. Agora, cabe a cada um de nós perceber qual o seu papel nesta grande moldura, pois, sair à rua é bonito, mas mais bonito é perceber o porquê. Esperemos que na próxima manifestação, os mesmos erros não sejam cometidos.

segunda-feira, março 14, 2011

Pensamentos












O pensamento é liquido; Se lhe abrires as portas, ele flui.

sexta-feira, março 11, 2011

Nós V

A imensidão aguarda nervosa

Os paraísos perdidos no tempo, de alguma forma, foram conquistados por necessidades desproporcionadas, em prol de magnificentes estilos de vida.
Todos estes últimos atalhos para a compreensão da evolução e de como uma serie de inesperados eventos moldaram o nosso mundo, têm agora alguns milhares de milhões de inimigos, que, cultivando idiotice em lugar de causalidade, arrastam com eles biliões de formas de vida a cada dia.
É curioso identificar o equilíbrio que nos trouxe até aqui, e realmente fascinante absorver os restantes pedaços vivos de história, que analisados pela nossa enorme capacidade de destructurar cenários, nos contam detalhadamente como somos possíveis.

É aqui, quando chegamos ao campo das possibilidades, que me tento a pensar que algum defeito na nossa evolução, nos fez sair fora de um ciclo que se reciclava há milhares de milhões de anos. Mas, assumindo que a evolução, para assim poder ser referida, não erra, podemos pressupor que somos apenas mais uma dos biliões de espécies que já habitaram este planeta e, que mais cedo ou mais tarde, mostraram não estar suficientemente adaptadas para lidar com os desafios.
Mais; Não pode ser apenas uma questão da nossa natureza, pois, sob todo o tipo de condicionantes, ou simplemente lançados no meio de exóticas abundâncias, milhares de homens, perdidos entre os já quase extintos últimos paraísos da terra, conseguiram sobreviver, e durante séculos, aprenderam a desenvolver posturas que lhes permite viver em harmonia com o que os rodeia, tornando-se assim, parte de um longo ciclo de renovação.

É de certa forma humilhante, quando nativos de remotas ilhas do pacífico sul, por vezes a milhares de milhas do pedaço de terra mais próximo, tendo como ferramentas, pouco mais que rudimentares utensílios de madeira, dêem conta das mudanças no globo através dos desequilíbrios em tão singulares ecossistemas, e tentando evitar perder o seu frágil estilo de vida, maximizam o pouco que têm, tentando assim contribuir para o restabelecer do equilíbrio.
O desenvolvimento deste tipo de consciência, foi o que aparentemente perdemos, quando decidimos trocar a humanidade pela economia...
Se estas pessoas vissem o que andamos a fazer todos os dias, é certo que morreriam de dor e decepção.

Bem vistas as coisas, é realmente humilhante para qualquer ocidental, homem equipado de utensílios complexos, com uma educação altamente qualificada, com modos de vida analisados de 30.000 pontos de vista diferentes, que no fim, o nativo de Anuta, tenha chegado ao que interessa uns quantos séculos mais cedo.

Felizmente, a nossa enorme capacidade de relacionar acontecimentos, aliada ao curioso facto de possuirmos um polegar, proporcionou-nos, tanto para a destruição, como para a geração de vida.
As consequências que o conhecimento teve sobre a espécie humana, ao longo dos últimos milhares de anos, é um fantástico equacionar de acasos, mas ainda assim, um equacionar que nos deu o poder de transformar quase tudo o que nos rodeia.
Quando olhamos atentamente para o actual estado da ciência, a única coisa que nos separa de num futuro não assim tão longínquo (dado os padrões da evolução), nos espalharmos pela longinqua vastidão do universo, é a deficiente falta de naturalidade, que por algum motivo, tanto nos orgulhamos de ostentar.

A multidão vive tranquila

quinta-feira, março 10, 2011

Transposição

Era um momento único, translúcido e obsceno. As paredes daquele reduto de tranquilidade, respiravam a cada implosão de sangue nas minhas veias aflitas. As cordas batiam frenéticas e com uma virginal inteligência orgânica, realizava-se o que gosto de chamar de ‘coup d'état’ de identidade.
Os momentos refractavam-se ligados por compreensões, as preparações tinham ganho o seu espaço, a mente dilatava-se, e sem mais onde a reter, tudo era violentamente jogado ao ar numa presteza hipnotizante.
Os sonhos faziam parte do real, o real efectivava os sonhos, e a utopia de viver em pleno, erguia-se suportada por colossais pilares moldados por actos de fé.
Eram vorazes apetites lançados num mundo onde o pudor da personalidade por muito tinha afogado vontades e virtudes. Eram nuvens de felicidade libertina, de sensações escondidas, de emoções por partilhar. Era uma vida de gritos acumulados em caixas demasiado precárias.

Faltam ainda milhões de passos, mas a cada dia que passa, tudo se aproxima.

Momentos XXVI

Sorri em absoluto júbilo e inveterado prazer mais vezes nos ultimos dois meses, que em todo resto da minha vida.
Não tenho poderes divinatórios, mas, algo muito físico me diz que é este o caminho para o absoluto usufruir dos trágicos prazeres da vida.

quarta-feira, março 09, 2011

EXA V

Sinto-me doente enquanto desvendo as armadilhas que nos “mantêm“ “sãos”.
Não é a irracionalidade dos vícios que me assusta, mas sim a nocividade que rodeia o obter de necessidades básicas para a sobrevivência da espécie.
Posso suportar os meus vícios; Acima de tudo, continuam a ser escolhas, que, ainda que contaminantes, são minhas. Já a falta de acesso a meios de subsistência saudáveis e livres de falsas verdades, liberta em mim uma revolta que mancha de negro o peito e joga sobre a alma uma cortina de incredibilidade.

Como nos deixamos levar por tão esbatidas e pouco convincentes canções de embalar? Como cheguei ate aqui tão ignorante…

É a facilidade do caminho, a aparente ausência de escolhas, a “sempre correcta” influencia que nos rodeia a cada segundo das nossas vidas.
Somos tão maleáveis, tão doces e transigentes enquanto seres, que na aparente ausência de necessidades, deixamo-nos contaminar por todo o tipo de actos desprovidos de valor.

terça-feira, março 08, 2011

Carnaval II

Meu suporte de vida
Minha forma de respirar
Foste o meu primeiro momento
Contigo aprendi a amar

Amar a vida, as cores, os sons
A libertação de vontades
O absoluto integrar de sensações
Que tudo em mim representa


Ensinaste-me a ser quem sou
A seguir o bater do peito
A sentir as pulsações da alma

Mostraste-me o sentido da vida
A beleza de festejar o presente
A magia das relações

Sinto-te longe, perdido, abandonado
Não sinto o toque do teu vibrar
O poder das transformações

Queria ter-te
Carregar-te aos ombros
E como em outros anos
Gritar-te até ao acabar

Sinto-te falta
Sinto-te triste
Sinto-te no lugar errado